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Dobradinha no menu das Júlias

Ou sobre o filme Dúvida

 

Isadora Dutra

 

 


     Lançado em 2009, Julie & Julia (Nora Ephron) nasceu do livro de Julie Powell, que nasceu do blog da autora, o qual, por sua vez, surgiu da idéia de narrar as suas aventuras culinárias numa pequena cozinha, no Queens, reproduzindo as receitas do livro da chef americana Julia Child (Mastering Art of French Cook). De adaptação em adaptação, chega-se ao filme, construído a partir das narrativas paralelas da vida de Julia, na França, e de Julie, em Nova York.
      O filme traz o reencontro dos atores Stanley Tucci e Meryl Streep. Depois de O diabo veste Prada (David Frankel), os dois atuam juntos novamente: Tucci desta faz o marido, Paul Child, da chef interpretada por Streep. Outra dobradinha que acontece na tela é entre ela e Amy Adams, que faz Julie. Mas as personagens das duas atrizes não se enontram na narrativa de Julie & Julia, na verdade elas não contracenam no filme. Para ver esse encontro é preciso assistir Dúvida, dirigido por John Patrick Shanley, também uma adaptação: da peça de teatro homônima, escrita por Shanley, que rendeu o Pulitzer de Drama e o prêmio Tony de melhor peça teatral em 2005.
   Na narrativa de Dúvida, Amy Adams interpreta a irmã James, que faz o contraponto da irmã Aloysius, de Meryl Streep: a primeira é a dúvida, a segunda, a certeza, pelo menos até o momento da sua confissão final; a primeira é ingênua, a segunda é a disciplinadora que acredita no medo como ferramenta da autoridade. O filme de Shanley conta a sequência de eventos que se seguem à entrada do primeiro aluno negro numa escola católica do Bronx, na década de 60. Para proteger o garoto negro, padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) faz dele um de seus coroinhas. A figura do padre estabelece outro contraponto em relação à irmã Aloysius, trazendo para a cena uma presença inovadora, entusiasmada e amigável, o oposto do vulto negro da irmã, que amedronta e pune os alunos. A suspeita, levada por irmã James ao conhecimento de Aloysius, desencadeia o embate entre as personagens, com diálogos cheios de ambiguidades e uma extraordinária interpretação do atores. Padre Flynn é colocado sob suspeita de abuso sexual em função de sua proximidade com o aluno novo.
      O filme todo se estabelece a partir desse jogo de contrastes entre a postura das personagens e suas posições na trama. Além disso, a narrativa intercala o espaço fechado da igreja e da escola com o espaço aberto do pátio e da rua. A fotografia de Roger Deakins (também fez Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes) e Matt Turval cria imagens que acrescentam conteúdo semântico à narrativa, metaforizando e estabelecendo relação direta com alguns dos temas apresentados na obra. Quanto à condução narrativa, o filme depende essencialmente dos diálogos, apoiados por ângulos, por vezes inusitados, que dão o tom e expressam a tensão dos conflitos entre as personagens e também internos. As posições da câmera parecem acompanhar mais de perto a situação psicológica da irmã Aloysius: cenas feitas de cima para baixo, por exemplo, denotam o incômodo da personagem, obstinada em relação à conduta do padre. Meryl Streep precisa investir tudo na expressão facial em função do figurino absolutamente fechado (diferente da interpretação mais física e gestual de Julie & Julia, por exemplo), como a maior parte do cenário, dando um clima claustrofóbico à dúvida na mesma medida em que se intensifica a tensão no embate de diálogos.
     Padre Flynn mantém suas falas ambíguas até o final do filme. O diálogo entre James e Aloysius vai aos poucos saindo da ambiguidade e apresentando a questão do filme. Enquanto, o diálogo entre a mãe do menino e Aloysius é o que alcança menor grau de ambiguidade ao mesmo tempo em que acrescenta à narrativa aspectos da realidade externa ao cenário da escola, descrevendo todo um contexto social que dá profundidade e problematiza a questão do filme. Nesse caso, o grau menor de ambiguidade do diálogo, paradoxalmente, oblitera ainda mais a solução do caso. A fala mais explícita entre as duas acontece numa cena de rua, em espaço aberto, que acompanha a exposição da realidade daquela família e do contexto social, em contraposição aos espaços fechados em que se alimenta a dúvida das personagens. A cena incrível e emocionante entre Meryl Streep e Viola Davis (a mãe do menino) é talvez a melhor do filme (e é difícil escolher a melhor cena num filme repleto delas, aliás um filme todo feito de melhores cenas: com embates impressionantes entre as personagens de Philip Seymor Hoffman e Streep, em que aparece a questão da hierarquia da igreja).
      O filme está apoiado sobre a ação primordial da irmã Aloysius, a figura que move a narrativa. Na sua obstinação, ela parece significar a certeza. Mas antes disso, ela é a ação. É movida pela certeza da necessidade de agir e não tanto (como se vê, no final) pela certeza da acusação que faz ao padre. Na visão da personagem, trata-se de um caso em que a dúvida exige a ação, travestida de certeza. No lado oposto, a irmã James, na dobradinha Streep e Adams, é a dúvida titubeante: mas não tão dúvida assim, já que é ela quem estabelece a suspeita sobre o padre e uma tal acusação exige muito mais proximidade com a certeza do que propriamente com a dúvida. Irmã James tem medo de ter certeza e irmã Aloysius tem medo de conviver com a dúvida. O filme desenvolve a constante alteração de gradações de dúvida e certeza e, por isso, se estabelece a partir de níveis de ambiguidade. Mais do que oposição entre certeza e dúvida, trata-se da contradição que pode haver na certeza e na dúvida. O efeito é instigante e as atuações imperdíveis.
     Voltando à vaca fria ou à dobradinha de Julie & Julia, a pseudo-dobradinha já que as duas atrizes não chegam a contracenar, o filme entra naquela esteira dos "filmes de gastronomia" (mais um cardápio para o Mesa de Cinema!) com um pouco de comédia e outra boa atuação de Meryl Streep (fazendo figura meio esquisita neste filme). Além do livro, que veio do blog, de Julie Powell, o roteiro foi enriquecido com as memórias da chef Child a respeito do tempo que viveu em Paris e frequentou Le Cordon Bleu. As peripécias culinárias das duas mulheres, vivendo em épocas diferentes e enfrentando desafios às vezes semelhantes, deixam aparecer alguns aspectos do contexto histórico e social de cada uma delas: quem será mais livre, a Julia das décadas de 50 e 60 ou a Julie dos anos 2000?
 

Imagens: (1)- divulgação filme Julie&Julia Wall Disney/ Miramax Films; (2)- foto divulgação filme O diabo veste Prada 20th Century Fox Film Corporation; (3), (4), (5)- fotos divulgação filme Dúvida Disney Buena Vista.