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O décimo primeiro passo

 
Ana Cláudia Munari Pelisoli ∗
anamunari@terra.com.br

 

 

   Assisti recentemente a uma palestra em que se comentava sobre a transição da música erudita clássica para a moderna. O tópico era uma obra de Modest Mussorgsky, Quadros de uma exposição, em que o compositor justamente relata, musicalmente, um passeio entre as pinturas de um amigo seu, o pintor russo Viktor Hartmann. Essa composição, que mais tarde se tornou famosa na versão para orquestra de Ravel, foi utilizada como exemplo pela palestrante para marcar uma característica da modernidade na música, nesse caso, o descompasso – em vez de utilizar um número par de compassos, dois ou quatro, como é próprio do caminhar, o compositor utilizou onze. E a palestrante questionou: é possível balizar esse passeio do espectador em onze passos que se repetem? Sim, ou não, a música é maravilhosa, e consegue criar essa atmosfera a que se propõe – e certamente ninguém pensa em ficar contando enquanto a escuta. Aliás, essa marcação é imperceptível ao ouvinte comum.
   Ouvintes comuns, leitores comuns, espectadores comuns, é o que somos, nós, mortais, alheios aos meandros da Arte e das arti-manhas de sua feição. Basta-nos o usufruto. E foi o que me coube, fechar os olhos e passear pela música de Mussorgsky, enquanto passavam diante de meus olhos as telas de Monet – direito meu: troquei as pinturas de Hartmann pelo impressionismo de meu pintor predileto.
   Foi nesse momento – de impressão, emoção, e não de razão – que me surgiu a resposta àquela pergunta da palestrante. O décimo primeiro passo! Lembrei-me imediatamente da sensação de estar no MASP, em São Paulo, caminhando entre as telas expostas, quando uma tela grande e rosácea interrompe bruscamente meu passeio. A visão, que até então era lateral e confusa, trouxe o deslumbramento, assim que, voltando um passo, eu me coloquei frente a frente com uma pintura de Monet. Não importava quantos passos eu havia dado pelo Museu até chegar àquele momento ímpar, importava o deslocamento, o descompasso, o desequilíbrio que me causava aquela visão das meninas em uma canoa sobre o Epte. E a música, então, foi o complemento perfeito para a minha catarse particular.
   A Arte é isso. O passo ímpar. Suspende-nos ao meio de nossa jornada, reverte, arremessa, remete-nos a um passo atrás ou à frente, subverte o óbvio. Para apreciar, e admirar a Arte, precisamos nos deslocar do instante mesmo, precisamos retirar um pé do real e pousá-lo no imaginário, no sonho, no verossímel.
   A metáfora do meu passo ímpar, que me volta à Arte, ou que me desloca do real, tornouse, para mim, a resposta àquela questão. O passeio de Mussorgsky não era uma caminhada comum, mas o trajeto irregular de alguém que saía dos eixos, como eu diante de Monet.
   Terminada a palestra, os dois pés bem firmes no chão, propus-me outra reflexão ao chegar em casa e ler o Caderno Cultura – O lugar da crítica. Novamente a questão do lugar, ou a posição dos pés. Pensei na última vez em que li um texto de alguém que tenha se mostrado assim, cambaleante, diante da Arte. Alguém no décimo primeiro passo. Não seria esse o lugar da crítica? Não seria o crítico esse que suspende exatamente aí o seu caminhar e que, nessa posição ímpar – um pé na frente, outro atrás – e, por vezes, incômoda, avalia esse entrelugar, essa diferença, essa desacomodação? Não seria justamente esse o crítico, aquele que se refaz do desequilíbrio pelo algo mais de sua verve e se torna capaz de fixar o olhar e buscar um eixo? 
   A Arte nos põe na corda bamba, impossível os pés paralelos. O crítico, então, não aquele imune, mas justamente aquele que sabe manter o equilíbrio, dividindo o peso igualmente entre os pés.
   Não tenho me deparado com esse crítico ultimamente, e raras são as exceções. Não tenho visto descompassos, mas opiniões. Gente que aprecia a Arte, gosta ou desgosta daquela música, daquele livro, daquele filme. Na tevê, no jornal, na revista, o que tenho visto são pessoas a me recomendar esse ou aquele trabalho daquele artista, ou a desaconselhar um e outro. Ou pior, a encomendar. A Crítica não se mede em passos, mas em cifras. Quanto vendeu, quanto arrecadou, em que lugar está. E se a Crítica não está na corda bamba, fica constantemente em cima do muro, um tanto largo, onde bem pode firmar os dois pés.
   Por outro lado, tenho visto outro tipo de crítica, essa dos sentidos comuns. Gente que cambaleia diante da Arte e depois vai pra casa mancando, postar no seu blog toda a sua desacomodação. Gente que, mesmo sem aquela verve, é capaz de descrever seu deslocamento e o como, o porquê e o tanto. É a crítica do décimo primeiro passo, ainda em falso. Risonha, chorosa, assustada. Mãos erguidas pra manter o equilíbrio, como única arma contra o tombo.
   Já o lugar da Crítica, essa pela qual o debate chama, estaria nesse espaço ímpar? Eu penso que sim, penso que o crítico não é um rei de armadura, e também pára no décimo primeiro passo, suscetível como nós ao desequilíbrio. No entanto, penso que, diferentemente de nós (seres de sentidos comuns, separados de Monet por uma linha amarela no chão), o crítico tem o direito – se não o dever – de gastar o chão ao redor do quadro, perto, bem perto da tinta.

 

 

*Doutoranda em Teoria da Literatura pela PUCRS, atualmente pesquisando a recepção de Harry Potter através da escrita do leitor na internet.