A Poesia que vem de Diadema pela internet
por Elizabeth Brose e Isadora Dutra
José Geraldo Neres é poeta, produtor cultural, roteirista e co-fundador do Grupo Palavreiros, composto por escritores e poetas de Diadema, São Paulo. Além da poesia, ele também escreve prosa e conquistou diversos prêmios sempre publicando na internet. Sua produção literária é encontrada em vários sites brasileiros como, por exemplo, Revista Etecetera, Jornal de Poesia, A Arte da Palavra, A Cigarra, A Garganta da Serpente e também em publicações internacionais de países como México, Argentina, Chile, Espanha, Estados Unidos e Portugal.
A formação de Neres está ligada à participação em diversas oficinas de criação literária, incluindo a realizada pela Secretaria de Cultura da cidade de Diadema e ministrada pela escritora Beth Brait Alvim, a qual deu origem ao grupo Palavreiros, fundado em 1999. No seu sétimo ano de atividades culturais, o grupo realiza diversos eventos como saraus, intervenções dramatizadas, performances poético-musicais, encontros e seminários com a intenção de divulgar a literatura em diferentes segmentos sociais. O trabalho do grupo é tão intenso que já conquistou o reconhecimento do Instituto Camões através da inclusão do site entre as sugestões de navegação da instituição.
Isadora Dutra - Sua poesia é publicada em uma grande diversidade de sites brasileiros, de diferentes países da América Latina e da Península Ibérica, inclusive com tradução para o espanhol, bem como a fortuna crítica de sua obra é facilmente encontrada na internet. Como você percebe a interação das mídias digitais com o sistema literário?
José Geraldo Neres – Considero a internet como grande ferramenta de divulgação literária.
É impressionante o seu alcance, essa sensação de que não existem fronteiras, posso conversar com outros escritores, poetas e eventuais leitores, sem me importar com a limitação geográfica. Isso ajuda muito, possibilita intercâmbio, e de certa maneira auxilia no diálogo com outras realidades literárias. Acho esses os pontos mais significativos da “grande rede”. É certo, tem também os pontos negativos, mas cabe a cada um fazer suas escolhas, procurar filtrar as informações e contatos. É um espaço democrático, e, como tal, se publica muito, de boa e má qualidade. Mas isso não é exclusividade do ciberespaço, o formato tradicional (a versão impressa) também apresenta esses dois lados da balança. É uma seleção natural. Voltando aos aspectos positivos da “grande rede”, as pesquisas, o contato com obras raras e a textos inéditos. Não acredito em uma “nova literatura”, numa literatura de internet; em autores de internet ou se fazer distinções com autores que têm suas criações editadas no formato tradicional. Acredito sim na boa literatura, no autor leitor, no leitor crítico, no prazer e na dor de se jogar no labirinto de informações que somos constantemente bombardeados, mas sempre é possível encontrar algumas pérolas.
ID - Por que sites e não livros?
JGN – Tudo começou em Diadema, no término de uma oficina literária, ministrada por “la maestra” Beth Brait Alvim, em 1999. A vontade da nossa turma em continuar produzindo, e é claro continuar com o convívio de pares da escrita, levou à nossa primeira publicação: um fanzine com o nome do grupo Palavreiros. Depois dessa versão impressa surgiu a versão virtual, esse foi o primeiro passo. Depois surgiu o intercâmbio com outros grupos ou revistas virtuais, a participação em encontros literários. Acho que o caminho escolhido foi o mais sensato, não creio que deveria trilhar o caminho do livro. Em 1999 estava sensível à literatura, não era o momento de uma publicação. Vale ressaltar que atualmente existem várias revistas (virtuais) que realizam publicações criteriosas e de qualidade. Cito algumas: Jornal de Poesia, Banda Hispânica, Agulha, Zunái, Cronópios, Confraria do Vento, Verbo 21, Bestiário e Máquina do Mundo (é um universo amplo e a cada dia surge um novo projeto, vale lembrar que cada site/revista dá oportunidade ao leitor de visitar outras revistas/sites parceiros).
Elizabeth Brose: Como foi o processo de aprendizagem nas oficinas da Professora Beth Brait Alvim? Qual eram os livros lidos? Como vocês discutiam os textos uns dos outros? Soube que havia uma espécie de argumentação gestual, como é esse processo?
JGN – Chamo a Beth de “la maestra”, foi ela que deu as primeiras puxadas de orelha, e assim mostrou o que é literatura, revelou que as escolhas são árduas, e também prazerosas. Que um autor se faz primeiro de leitura. Que temos que retrabalhar o texto. Que existe muito mais de suor/labuta do que apenas acreditar em musas inspiradoras. Acho que o grande mérito (e não o único) dessa oficina foi (e é) a sensibilidade de “la maestra” em conduzir mais de vinte sonhadores. Nossos laços vão além da escrita. Com alguns caminhei e ainda caminho. Surpreendo-me com a escritura de Juan Carlos Rodriguez Latorre, Maria Regina Araújo, Radi Oliveira, e Reni Adriano, para citar alguns dos participantes dessa oficina. Com relação aos livros/autores apresentados; Cora Coralina, Drummond, Mário de Andrade e Oswaldo de Andrade, Adélia Prado. Minha memória não é das melhores, porém “la maestra” também indicava leituras, exercícios de recriação textual, e principalmente, apreciação crítica de nossos escritos. Tínhamos uma agenda programada para leitura dos participantes, estes por sua vez realizavam uma seleção de seus textos e distribuíam para todos, dessa maneira cada oficinando apresentava suas considerações críticas (pontos positivos e negativos do texto). Ao autor era reservado os últimos quinze ou dez minutos finais da apreciação para seus comentários. Um aprendizado e exercício de “ouvir o outro”. Já o processo de argumentação gestual, dinâmicas de livre apropriação e interpretação gestual do texto, numa delas tínhamos que interpretar o texto com gestos sem o auxílio da oralidade. Reunidos em grupos encontrávamos a melhor opção de realizar essa interpretação. Enquanto um grupo se apresentava o outro observava o desenrolar da dinâmica. Lembro de uma em especial: foi apresentado textos a dois grupos e esses tinham que realizar a interpretação gestual dos textos, enquanto o outro fazia sua parte de observador. Passamos horas realizando esse embate, e só no final descobrimos que os grupos tinham o mesmo texto, que era um haicai. Hoje penso nessa oficina como as “Cartas a um jovem poeta” de Rainer Maria Rilke; Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou". É impressionante como ela nos introduziu nesse mundo, como ela nos fez “escavar” e procurar a “resposta que não existe”. É certo que uma vez seduzido por essa maldição, não temos mais como recuar. Assim procurei outras possibilidades de aprendizado, mais oficinas de criação literárias (Cláudio Feldmann, Claudio Willer, João Silvério Trevisan, Ovídio Poli Junior), dramaturgia (Luiz Alberto de Abreu), roteiro de cinema em vídeo (Luiz Alberto de Abreu e Sérgio Pires); diálogos que me auxiliam numa melhor construção estética, e de vida. Tenho nessas oficinas/mestres minha formação literária, e que representam em muito o que hoje sou.
ID - Além da criação poética e da co-fundação e/ou edição dos sites Palavreiros e Poética Social, você realiza várias atividades ligadas à cultura e à criação literária em gêneros diferentes, que incluem ainda a prosa e a dramaturgia. De que modo tais atividades se relacionam entre si e interferem na suas escolhas criativas?
JGN – Minha prosa é altamente contaminada pela poesia, porém não acredito muito na separação dos gêneros, e nem que isso seja algo depreciativo na minha opção criativa, é uma opção que faço, mas algo me leva a acreditar que isso é parte do processo de construção de um autor. Gosto das possibilidades que cada uma me proporciona. Sou altamente ligado à imagem, a arquitetura dos textos por essa possibilidade imagética; assim levo essa obsessão para o roteiro de cinema em vídeo; organizar ações em imagens é algo que está presente também na minha poesia. Já em dramaturgia é algo que ainda está em construção, necessito de mais maturidade e tempo para poder pesquisar e praticar mais.
EB: José Geraldo, você também trabalha intensamente na área da cultura da cidade de Diadema. Como você concilia uma atividade tão introspectiva e outra tão voltada à população em geral?
JGN – Acredito que ser poeta é ir além da escrita. É opção de vida. É seduzir o outro, compartilhar leituras. Esse espírito coletivo é algo adquirido nas práticas desenvolvidas com “la maestra”; a escrita é algo extremamente solitário, porém a vida é esse pulsante coletivo: participar de encontros, visitar escolas, realizar leituras em público, ir ao encontro desse público. Acredito muito nessa utopia. Se assim posso dizer, sou parte dessa ação coletiva.
EB: Você costuma reunir poetas e críticos para discussões muito produtivas e dirigidas ao público? Qual tem sido o resultado? Muitos querem escrever mais, outros ler mais, alguns provavelmente gostam do diálogo em si. Como você vê a recepção ao seu trabalho?
JGN – Ainda existe um distanciamento, um abismo entre o autor e o leitor. Alguns ainda cultivam a imagem do autor como um “ser especial”, com poderes divinos e coisas do gênero. Existem pessoas que acreditam que estamos caminhando para extinção do leitor. A média de leitura de um brasileiro é algo que nem gosto de mencionar, porém necessitamos (urgentemente) reverter isso. Cultura e Educação precisam trilhar o mesmo caminho. É preciso realizar essa sedução (incentivo à leitura) com o público infantil, de maneira lúdica. E que a criança seja/tenha papel ativo nessa estória. Por exemplo: numa ocasião em que o escritor Luiz Ruffato visitou o Centro de Cultura Heleny Guariba, onde temos uma Sala de Leitura que leva o seu nome. Foi uma tarde mágica, onde as crianças puderam conversar com o escritor “olha, ele usa camiseta vermelha!”. Ou ainda: “Seu Luiz Ruffato, o senhor acha importante isso que você faz?”. Impressiono-me com os resultados (se assim posso dizer) de nossas oficinas de contação de histórias. É o primeiro ano, mas já aparece um tapete contador de histórias, um grupo mirim de contadores de histórias, um clube de leitura, um clube de amizade, nomes que as próprias crianças deram para suas oficinas. Ainda com relação ao contato autor/leitor, no ano passado realizamos o encontro literário “1ª Mostra Internacional de Literatura – Diadema Território Livre da Palavra” que priorizava esse diálogo com o público (alunos da rede pública de ensino, leitores, educadores). Essa ação da Secretaria de Cultura foi apenas um primeiro passo e tudo indica que nos próximos anos teremos novos momentos de diálogo.
ID - Uma característica marcante de sua poesia é a extrema concisão dos versos nos chamados "poemínimos". O que você busca criar através de tal recurso, que constitui uma tendência da literatura contemporânea também na prosa?
JGN – “Poemíninos” é apenas uma parte da minha poesia, uma fase. É uma tentativa ocidental de incorporar o haicai japonês. As palavras num instantâneo de uma fotografia. A foto na ausência do fotógrafo. Pessoalmente não acho possível nesse mundo do tudo agora, de tudo já, desse massacre de informações em se realizar um haicai tradicional japonês (Bashô, Buson e Issa). É uma tentativa. E essa tentativa se incorporou nas criações posteriores. Não penso no haicai como tendência, mas sim na possibilidade da “palavra exata”, no texto conciso de três laudas, onde cada palavra está exatamente onde se deve estar (ou pensa estar), com o seu “peso” e toda sua “simbologia”. Onde não conseguimos identificar ou excluir nenhuma palavra do texto original. Em breve deverá ser publicado pelo projeto social “Dulcinéia Catadora” dois volumes com esses poemas, que levará o nome: pássaros de papel. Uma edição bilíngüe em português e espanhol. No link: http://www.meiotom.art.br.
ID - Quais poetas da atualidade você lê e indica?
JGN – Tarefa ingrata, pois sempre se deixa de mencionar algum poeta: Mia Couto, Cruzeiro Seixas, Herberto Helder, Roberto Piva, Claudio Willer, Floriano Martins, Contador Borges. E sem esquecer as eternas leituras de Murilo Mendes, García Lorca, Raul Bopp, Vicente Huidobro, Enrique Molina, Aldo Pellegrini, e Octavio Paz.
Imagem: Foto divulgação Grupo Palavreiros
Confira as leituras inéditas dos poemas de José Geraldo Neres, feitas pelo próprio autor, na seção Podcast da Palpitar (clique do nome do autor).
Visite o portal do Grupo Palavreiros: http://www.palavreiros.org
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