Poesia no imperativo
O processo criativo do poeta Milton Rezende
por Marcos Vinícius Almeida
Mineiro, leitor de Drummond e Pessoa entre outros, Milton Rezende acredita no jogo de combinação de palavras e imagens lidas na hora de produzir sua própria poesia. O livro "Uma escada que deságua no silêncio" apresenta alguns de seus temas recorrentes, como o amor e a solidão, ao mesmo tempo em que busca evocar as memórias da infância. Ele também escreve prosa e já publicou "O acaso das manhãs" (1986), "Areia (À Fragmentação da Pedra) (1989) e "De São Sebastião dos Aitos a Ervália – Uma introdução" (2006).
Em entrevista concedida ao escritor Marcos Vinícius Almeida e publicada no Portal Literal, o poeta avalia sua linguagem poética e reflete sobre a produção literária no cenário cibernético contemporâneo.
Marcos Vinícius: Por que escrever, Milton? Quando começou?
Milton Rezende: Porque é imperativo. Creio que essa é uma característica (que alguns chamariam de dom) que já nasce com a pessoa. Comecei a escrever aos 13 anos de idade.
MV: Quais são suas principais influências e de que modo os autores que você lê interferem no seu processo criativo?
MR: Todo processo criativo implica numa recriação. Cada poema escrito é uma realocação dos elementos que já existiam: significa combinar de uma outra forma e de uma maneira própria as idéias e as palavras que existem desde sempre. Sendo assim, todos os autores lidos interferem de alguma forma no seu fazer poético. Os meus autores preferidos são: Drummond, Fernando Pessoa e Augusto dos Anjos; mas não sei até que ponto eles me influenciaram.
MV: Como você percebe a evolução ou reestruturação da sua linguagem nessa nova obra em relação as anteriores?
MR: Parece-me, neste novo livro, que houve alguma reestruturação da minha linguagem no sentido de torná-la mais concisa e evocativa, buscando lembranças da infância e juventude que estavam guardadas na memória. Mas acredito que tenha sido um processo que não deverá se repetir.
MV: Com a facilidade de publicação que a internet tem proporcionado, nunca houve tantos “poetas” como hoje em dia. Você vê uma saturação desse gênero? Na sua percepção, qual é a relação entre a banalização da poesia, que acarreta esvaziamento de significado e da forma, e o excesso de produção?
MR: É uma pergunta de difícil resposta. Acho que sempre houve um excesso de “poetas” e a internet possibilita realmente que sejam “jogados” uma quantidade enorme de poemas no espaço cibernético, mas quem os acessa? A dificuldade de publicação e divulgação ainda persiste apesar da democratização dos meios, que é salutar. Mas não entendo isso como uma saturação ou banalização do gênero poesia, pois o tempo (e somente ele) é que define o “quem é quem” no final das contas.
MV: Seu livro remete a elementos muito fortes da cultura mineira, sem se perder no bairrismo; - é do cotidiano que brota a arte?
MR: A cultura mineira, como todas as culturas, é muito rica e variada. E eu, como mineiro que nunca saiu de Minas, possivelmente reflita este aspecto em minha obra. Mas a verdadeira arte é atemporal e não conhece fronteiras, e reflete tanto o cotidiano como o transcendente.
MV: Memória, morte, solidão, infância e a condição de poeta: são alguns temas que nos afetam na leitura de Uma escada que deságua no silêncio. Você dá carne a esses temas através de recursos bem definidos, como enumeração, por exemplo. Como é esse processo de busca do aspecto formal que melhor desvele o sentido de um verso?MR: A poesia é muito intuitiva e o conteúdo deve vir antes do aspecto formal. Com o tempo e a prática a gente aprende a utilizar certas técnicas, como a enumeração que você citou e o ritmo, que é fundamental.
MV: Como você escreve? Tem algum ritual?
MR: Não tem ritual nenhum, embora haja alguns procedimentos e hábitos. Geralmente eu me emociono quando escrevo, dependendo das circunstâncias. E tenho muita revolta e uma necessidade de escrever, de botar pra fora. O silêncio é uma escada para dentro de si mesmo.
MV: O que é poesia, Milton?
MR: Não creio que se possa definir. Muitos autores já tentaram, ao seu tempo, e conseguiram, sob a ótica deles, uma definição interessante, diferente e igualmente válida. Mas não passavam de exercícios. A poesia sempre escapulia. Acredito que ela esteja situada em qualquer esquina, à beira de um abismo. É preciso saltar para encontrá-la.
Imagens: divulgação selo Terceira Margem da Editora Multifoco.