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A evolução da idéia de autor na história da literatura

Regina Zilberman fala sobre o conceito de autoria e suas parcerias em publicações

 

por Elizabeth Brose e Isadora Dutra

 

  Uma das mais importantes especialistas em literatura infanto-juvenil entre outros temas, Regina Zilberman é professora-pesquisadora na Faculdade Porto-Alegrense de Educação, Ciências e Letras, além de atuar como colaboradora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Sua experiência profissional está voltada para as áreas da História da Literatura e da leitura, formação do leitor, literatura infantil e do Rio Grande do Sul com uma produção de mais de vinte livros publicados.

 Nascida em Porto Alegre, Regina Zilberman é formada em Letras pela UFRGS e possui doutorado em Romanística pela Universidade de Heildelberg, na Alemanha. Nos estados Unidos, ela completou o pós-doutorado na Brown University, em Rhode Island. Em 2000, recebeu o título Doutor Honoris Causa na Universidade Federel de Santa Maria.

  Em entrevista concedida à Palpitar, a professora fala sobre o conceito de autoria, dando continuidade à série sobre o assunto.

 

Palpitar- O Romantismo propõe a idéia de gênio individual. Autoria seria, então, uma sobreposição da figura do escritor, do criador, do articulador do texto e da figura que recebe a inspiração de modo inexplicável. Pela concepção do autor como gênio o leitor teria contato com o texto de um eu muito acima da normalidade. Essa é a idéia geral do autor demiurgo, do criador absoluto. José Luís Jobim, autor do verbete "Gênio", no E-dicionário de termos literários, lembra que Hans-Georg Gadamer aponta o mito estético da imaginação livremente criativa, que transforma experiência em texto literário, e o culto do gênio como indicativos, no século XIX, de que a tradição da mímesis não estava em voga nas práticas artísticas. Essa idéia romântica de autoria ainda atrai uma fatia dos leitores contemporâneos. Produz-se a ilusão de compartilhamento de sentimentos, de emoções e de raciocínios daquele autor. No livro "A formação da leitura no Brasil" (1996, Ática), escrito em conjunto com Marisa Lajolo, os leitores são entendidos como sujeitos que podem dialogar com os pensamentos, cruzar dados, alterar seus horizontes, influenciando o contexto em que vivem. De certo modo, essa também é uma proximidade simulada entre leitor e autor. Quais as diferenças entre as noções de autor de ficção e autor de texto científico? Como você define a autoria de texto científico e a co-autoria?

Regina Zilberman- Nesta questão, há vários problemas entrelaçados, que procurarei examinar de modo separado. Em primeiro lugar aparece a questão da autoria, tema a respeito do qual Michel Foucault tem um excelente ensaio. Para além da reflexão de Foucault, que se refere à função “autor”, de natureza histórica e ideológica, é preciso lembrar que a atribuição de um peso específico para o autor, no conjunto do sistema literário, relaciona-se à expansão da produção impressa, após a disseminação da invenção da tipografia mecânica por Gutenberg. O autor, desde a Antigüidade, foi um elemento importante para a identificação da obra; com a expansão da cultura do livro, no bojo da modernidade, ele passou a encarnar o aspecto criativo e artístico da produção literária, camuflando, digamos assim, o aspecto mercantil e material da literatura e da arte. Para o autor, porém, essa mitologia não foi suficiente, pois sua independência dependia também de sua autonomia financeira, o que poderia decorrer de sua profissionalização. A cultura do livro vem, assim, acompanhada tanto da mercantilização e industrialização da produção com a palavra, quanto da ascensão das reivindicações de pagamento de direitos autorais, na esteira do reconhecimento da propriedade literária. Marisa Lajolo e eu tratamos a questão em O preço da leitura (Ática, 2001), e procurei examinar a questão também em As pedras e o arco (ed. da UFMG, 2004).

A discussão relativa à profissionalização do escritor e à necessidade de remuneração de seu trabalho acirra-se no século XIX, à época do Romantismo. Por essa época, intensifica-se igualmente a caracterização do artista como “gênio” ou “titã”, figura movida exclusivamente por seu desejo de criar e incapaz de capitular às seduções do mercado. Estabelece-se, assim, uma contradição entre dois tipos de aspirações, ambas legítimas, sendo a primeira a de reconhecimento profissional, e a segunda, a de liberdade de criação. Contudo, o problema foi tomando a feição de uma dicotomia, como se optar por um dos lados significasse abrir mão do outro. O artista foi sacralizado, pois dominaram as concepções idealizadas que o associavam a um ser quase divino ou mágico, sendo essa a maneira que a sociedade encontrou de não defini-lo como trabalhador, de impedir sua identificação com a classe operária e de remunerá-lo mal ou ocasionalmente.

Pertencem a essa contradição outras falsas aporias, como as que a parte final da pergunta questiona, a saber: a diferença entre o autor de ficção e o autor de texto científico; e a diferença entre escrever solitariamente ou em co-autoria. O caso é que não existe a escrita solitária, já que a produção é um ato coletivo, de um lado, por pertencer a esse processo a participação de vários sujeitos (desde o redator, até o distribuidor, passando no caminho pelo revisor, o editor, o empresário, o impressor, o livreiro, etc.), de outro, porque cada texto que escrevemos é o efeito de todos os textos que lemos, ouvimos, discutimos, esquecemos, ignoramos. O autor não é autor, se não for leitor, ouvinte, falante, performante. Eis porque a co-autoria é inerente ao ato da escrita e ao ato da leitura, confirmando o perfil social e comunitário de que somos revestidos.

P- O que precede a obra desenvolvida em conjunto com Marisa Lajolo? Há experiências em comum entre vocês quanto aos seus interesses teóricos e leituras? Como e por que surgiu a idéia de escrever a quatro mãos o livro Literatura infantil brasileira: história & histórias, em uma das parcerias mais consideradas no âmbito literário?

RZ- Marisa Lajolo e eu começamos a trabalhar em parceria no começo dos anos 1980, após uma Bienal do Livro em São Paulo, em que participamos de mesas-redondas e discussões sobre literatura infantil. Já conhecíamos nossos respectivos textos escritos e começamos a trocar correspondências e novos textos, pois comungávamos algumas idéias sobre literatura infantil, sobre a relação entre a literatura infantil e a literatura brasileira, sobre as relações entre literatura e mercado. O livro Literatura infantil brasileira: história & histórias foi-se configurando ao natural; na seqüência, foram aparecendo as demais obras, e já temos cinco livros impressos (Literatura infantil brasileira: história & histórias; Um Brasil para crianças; A leitura rarefeita; A formação da leitura no Brasil; O preço da leitura) e um no prelo (Das tábuas da lei à tela do computador: a leitura em seus discursos), além de participarmos de publicações coletivas com ensaios elaborados em parceria.

P- Na obra A leitura rarefeita (Ática, 2002), você repete o encontro criativo com Marisa Lajolo. Suas inquietações teóricas parecem ser compatíveis com as dela. O livro surge de uma busca comum por respostas para as mesmas perguntas ou é conduzido de forma a conciliar visões e dúvidas diferentes?

RZ- O livro A leitura rarefeita foi publicado originalmente em 1991, a que se seguiu A formação da leitura no Brasil e O preço da leitura. O tópico que une os três livros e que motivou a pesquisa desde o início foi a preocupação em pensar a história da literatura brasileira, bem como as relações entre literatura e sociedade, desde a perspectiva da formação do público e da consolidação das instituições vinculadas à leitura em nosso país (mesmo antes de ele ser um país ou uma nação, já que A leitura rarefeita dedica um largo trecho à época colonial). A pergunta que não quer calar aparece direta ou indiretamente nos três volumes: por que, desde o início, nos debatemos com a falta de público, a carência das escolas, a fragilidade da literatura, se os projetos pedagógicos, bem ou mal, acompanham nossa história desde seu começo, entre os jesuítas? Eis a inquietação básica, que motivou a investigação e a escrita dos livros.

P- Para uma fatia do público, o autor seria, segundo João A. Hansen, a "individualidade empírica responsável, como causa criadora, por objetos com a rubrica de um nome próprio, índice de sua autenticidade e propriedade." Essa crença também ocorre nos trabalhos de pesquisa? A co-autoria pode interferir na recepção de um livro como A leitura rarefeita, livro e literatura no Brasil?

RZ- Acho que respondi a essa questão, quando abordei a primeira pergunta.

P- Além da parceria com Marisa Lajolo, você tem várias publicações realizadas com outros colegas de profissão. É necessário, para escrever em conjunto, uma confluência ideológica e teórica entre os autores?

RZ- Efetivamente, escrevo em parceria há muito tempo: Ana Mariza Filipouski e eu fizemos Erico Verissimo e a literatura infantil (ed. da UFRGS, 1978), com Ligia Cademartori escrevi Literatura infantil: autoritarismo e emancipação (Ática, 1982), com Ezequiel Theodoro da Silva, Literatura e Pedagogia (Mercado Aberto, 1990; Global, 2008), com Maria da Glória Bordini, O tempo e o vento: história, invenção e metamorfose (EDIPUCRS, 2004), além de ter organizado obras coletivas em parceria ou individualmente. É claro que a confluência teórica e ideológica é importante, embora não seja necessária uma semelhança de idéias ou de metodologias, já que cada autor privilegia tal ou qual ângulo ou valoriza tal ou qual perspectiva. Mas o mais importante é o seguinte: primeiramente, a “afinidade eletiva”, para usar, no singular, a expressão que, no plural, dá título a um dos mais importantes romances de Goethe; além disso, um grande respeito intelectual de parte a parte.

P- O leitor muitas vezes invade o espaço do romance ou da narrativa, vai penetrando a diegese como personagem ou como referência do narrador. O leitor também se apropria um pouco da autoria quando constrói interpretações para os textos?

RZ- Sim, o leitor é sempre um autor, já que é seu gesto que dá vida ao texto impresso. Se, diante de um leitor, de certo modo, o autor é invadido (e, queiramos ou não, violado) pelo olhar alheio, é preciso lembrar que todo o autor desempenha ação similar, quando age como decifrador do texto do outro.

P- Você escreveu sobre a literatura e a leitura no Brasil. Qual a sua história de leitura, sua experiência de leitora? Como você entrou em contato com a literatura e em que medida esse contato definiu seu caminho profissional? Você tem preferência por que tipo de leitura e de obra?

Essa pergunta requer uma resposta longa demais. Mas acho que fui leitora mesmo antes de ser alfabetizada, pois os livros me atraíam desde pequena. Contudo, só me defini pelo curso de Letras, quando me inscrevi para o vestibular. Até aquele momento, contemplava a idéia de fazer Sociologia, Medicina, etc. Na hora de preencher o formulário, constatei que meu caminho ia pelo estudo da literatura. Não me arrependi.

P- Afinal, o que a literatura tem para nos oferecer num mundo que, hoje, parece mais nos causar medo do que maravilhamento?

Não sei o que a literatura pode oferecer; mas, da sua parte, a ficção oferece muito, pois não podemos viver sem a imaginação. É verdade que os aparelhos institucionais têm feito o que podem para afastar os sujeitos do mundo da fantasia, sendo que a infância abandonada, nas ruas e nas favelas brasileiras, é o retrato mais realista e cruel desse tipo de exclusão. Mas a literatura acompanha a humanidade desde seus primórdios e já passou por períodos muito difíceis. Espera-se que possa igualmente sobreviver ao nosso tempo.