Criação
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O SORVETE DE FRAMBOESA
Leandro Fonseca
Passado alguns instantes, os dragões pintados nos quadros do museu saíram de suas telas, cuspindo no chão tinta a óleo. Eram três dragões de diferentes características e de distintos gênios: o maior de todos, vermelho e roxo, possuía um fantástico senso de humor, que não o escondia, mesmo nas situações mais embaraçosas. O outro, de médio porte, negro com manchas azuladas espalhadas pela longa cauda adornada de espinhos, não se importava em demonstrar suas habilidades de má educação. Sempre muito comunicativo, gostava de machucar as pessoas com suas pontiagudas palavras. E, por último, o menor dragão de todos, branco com listras amarelas, possuía tamanha perspicácia, que todos os outros dois dragões o respeitavam. Era o que sempre tomava as atitudes mais sensatas em situações de risco, exalava responsabilidade pelas ventas.
Nem todos os personagens literários necessariamente precisam ser batizados com algum nome. Portanto, não denominaremos nossos três personagens nesta requintada história. Mas, à desejo dos leitores mais confusos, e, quiçá, distraídos, rotularemos nossos três dragões a partir de seus gênios: o maior de todos se chamará Hilário, o dragão mediano será Ríspido e o menor de todos, devido seu fantástico amadurecimento, será chamado de Chefe. Através deste estupendo personagem, demonstraremos que tamanho não é problema, muito menos documento, já que, em nossa sociedade atual, somos conhecidos por números por nosso sagaz Governo. E como, na literatura, nem todos os personagens precisam ter nomes, também não precisaremos de muitos personagens para compor esta magnífica odisséia. Os três distintos dragões estarão acompanhados por um urso que, pasmem, é mudo, um político e seu cão chamado Anônimo e uma pequena garotinha de sete anos de idade.
Após terem saído de suas telas, Hilário, Ríspido e Chefe cuspiram tinta a óleo no chão do museu e desejaram naquele exato momento tomarem um sorvete de framboesa. Nesta história nossos dragões não possuem asas, muito menos cospem fogo. Deixaremos para trás todos os estereótipos medievais que foram criados em torno destes personagens répteis tão fascinantes. Saíram para a rua, com passos lentos e pararam em frente à um ponto de ônibus. Parado como uma estátua, jazia um urso grande e coberto por pêlos grossos e negros, fumando sossegado um charuto cubano. Hilário aproximou-se do Urso Fumador de Charuto Cubano, contando-lhe uma piada sobre nazistas na África do Sul. O urso apenas o ouvia com olhos atentos, e após o término da anedota, este cuspiu no chão e virou-se para o outro lado, deixando de lado nosso querido e grande dragão vermelho e roxo.
Ríspido, tomando as dores do amigo, aproximou-se do urso, dizendo-lhe que sua boca cheirava a enxofre e seus pêlos a carniça putrefata. O urso resmungou baixo, cuspindo na cauda de nosso dragão rabugento. Ele saiu para o lado, pisando firme, e praguejando contra aquele ser impassível que havia salivado em seu corpo. O dragão branco de listras amarelas, com toda sua pequenez, deu alguns tapinhas de consolo nas costas de Ríspido, aproximando-se do urso negro. Chefe, então, com toda delicadeza e educação existentes neste e em outros mundos, perguntou-lhe onde poderia achar uma sorveteria no qual vendesse picolé de framboesa. O urso jogou no chão o charuto, pisou e fez alguns gestos com as patas, querendo dizer-lhe que não conseguia se comunicar pois era deficiente. Chefe agradeceu, pediu desculpas pelo incômodo, e junto com os outros dois dragões, andou à esmo pelas ruas da cidade.
Um cão latiu em suas costas, Chefe virou-se abruptamente, vendo a imagem de um vira-lata aproximar-se de si, pedindo para que o esperassem. Pacientemente os três dragões aguardaram a chegada do cachorro que, ofegante, fora logo se apresentando, dizendo seu nome ser Anônimo, e nada mais além do que aquilo. O quarteto iniciara sua caminhada juntos, enquanto Hilário contava ao Anônimo uma piada sobre sete alienígenas que haviam se arrependido de abduzir um português, argumentando que não havia nada para ser extraído de sua mente. O cão rosnou, ameaçou mordê-lo, vociferando contra o dragão vermelho que sua ex-esposa, a cadela Anônima, havia nascido em Portugal. O grande e volumoso dragão pediu desculpas e ficou excluído em um canto, nada dizendo durante um longo tempo. Ríspido havia comentado com Chefe que o cachorro era fanho e que sua voz era terrivelmente feia. Anônimo ouvira o maldoso comentário, e com uma única mordida fez também calar o dragão negro e azulado. Chefe, então, calmamente, perguntou ao cão onde poderiam encontrar uma sorveteria no qual pudesse achar picolés de framboesa. Anônimo pensou, pensou e pensou um pouco mais, dizendo para os três o acompanhar até sua casa, pois seu dono, homem famoso e influente, com certeza poderia lhe dar maiores informações.
O cachorro havia levado os três dragões em frente à uma gigantesca mansão. Na verdade, era um castelo luxuoso cercado por palmeiras extensas. Não tiveram que atravessar nenhuma ponte de madeira, apenas adentraram em uma imensa garagem entupida de luxuosos carros esportivos, subiram dezenas de escadas até chegarem a uma sala repleta de livros empilhados. Havia um homem gordo de baixa estatura sentado em um trono, contando minuciosamente uma porção de moedas de ouro. Após perceber a presença dos recém chegados, aproximou-se deles com os braços abertos e alguns folhetos nas mãos roliças. Anônimo, seu cão, deu algumas lambidas no dono, informando pausadamente a situação dos três pobres dragões sedentos por um sorvete de framboesa. Hilário chegou perto do político e contou-lhe a piada dos três vegetarianos que fizeram uma viagem para o continente africano. O político rira em alto som da anedota, abraçando com carinho o dragão vermelho. Ríspido aproximara-se do homem, dizendo-lhe que era extremamente parecido com um botijão de gás. O político afirmou que iria jogar sobre ele dezenas de processos por desacatar uma influente autoridade. Chefe, com toda sua pequenez, pedira humildemente a informação, pois estavam cansados demais e necessitavam de saborear um sorvete de framboesa. O político deslizou as mãos pela barriga rechonchuda, pensando sobre o caso. Então, sugeriu a seguinte proposta: iria dar-lhe a informação caso lhe dessem uma pequena propina. Os dragões informaram que estavam sem dinheiro, pois dragões, nem nesta e nem em outras histórias possuem dinheiro. O homem chamou dois seguranças perfeitamente vestidos de terno preto e mandou que expulsassem aqueles intrusos. Anônimo deu ainda algumas mordidas nos três dragões, que foram despachados daquela casa com tamanha rapidez.
Desiludidos e melancólicos, Hilário, Ríspido e Chefe iniciaram nova caminhada à esmo pelas ruas da cidade. Foi quando avistaram uma pequena garotinha de sete anos de idade sentada em um banco de uma praça, a olhar com vontade para um picolé de framboesa. Hilário aproximou-se da menina, e com todo seu tamanho assustou a garotinha, que começou a chorar sem nem ao menos ter ouvido a piada que o dragão havia para contar. Ríspido falara mal da garota, dizendo-lhe que era tapada e que chorava demais. A pobre menina chorou ainda mais com sua grande boca com dentes ainda para nascer, e foi acalmada apenas quando Chefe fez alguns afagos em sua cabeça cheia de cabelos louros. Ela, agradecida pelos carinhos recebidos, entregou o sorvete nas mãos de Chefe que, de olhos arregalados, enfiara o sorvete goela abaixo.
Os outros dois dragões, entupidos de ira, avançaram contra o pequeno dragão que, após alguns minutos, estava caído na calçada, morto e sangrando. Ríspido ainda teve tempo de retirar o sorvete do estômago aberto de Chefe, e engoliu-o com extrema vontade. Hilário, perdendo toda a graça, derrubou o dragão negro contra o chão e mordeu-lhe a garganta, arrancando fora sua cabeça. Apanhou o picolé de framboesa ainda no esôfago do dragão e mastigou-o deliciosamente, sentando-se ao lado da garotinha. Ela, então, com um sorriso no rosto, ergueu-se do banco, dizendo que havia posto veneno dentro do sorvete de framboesa, e que, dentre cinco minutos, ele iria morrer de convulsão.
Leandro Fonseca, 17 anos, mora em São Paulo e tem o conto "A Vingança da Mosca" publicado em uma antologia de contos policiais, "Assassinos S/A", pela Editora Multifoco. O autor mantém o blog Verborragia Conveniente (http://verborragiaconveniente.blogspot.com/ ).
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