Criação
Tire agora da gaveta os seus contos, crônicas, poesias e outras criações para que os leitores da Palpitar possam conhecer mais uma revelação do mundo da literatura.
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Uma mulher singular
Ana Elisa Prates
mestranda em letras pela PUCRS
Exigia da humanidade algo que ela não podia ser: humana. Maria Helena era assim, uma mulher singular. Não se enquadrava como todas as outras.
Desde pequena se diferenciava das crianças de sua rua. Brincava, é claro, de sapata, de roda, de boneca. No entanto, lá pelas tantas, sentia um enorme desejo de ficar só. Apenas para ler seus livros. Largava a brincadeira e corria para seu quarto. Metia-se debaixo da cama para ler. Lia Cecília Meireles, Machado de Assis e tantos outros autores. Ela amava a literatura. Era difícil passar uma tarde toda somente com as outras crianças, precisava ler. Era vital. Tomara o gosto da leitura com o pai Aurélio, homem de letras. Ficara viúvo cedo e lhe coube a tarefa de criar as filhas. Maria Helena era a filha do meio. A primogênita Branca era o oposto dela. E, a menor, Alice, uma menina que sentia o peso de ter perdido a mãe no dia do seu nascimento. Quando adolescente Maria Helena ficava abismada com as conversas das irmãs. Versavam sobre moda, fofocas de artistas, festas, rapazes. Assuntos pertinentes a moças de sua idade. Maria Helena se sentia pouco a vontade com trivialidades, era toda densa, intensa em sua sensibilidade febril pelas coisas mais profundas da vida. Ela não entendia esse mundo vazio de significados em que vivia. Era na arte dos escritores que se sentia à vontade. Com eles, lendo e relendo suas palavras podia ter esperanças pela humanidade que tanto desejava. Ela não se sentia fora do mundo, era o mundo que estava fora dela. Sua órbita era a humana, a dos outros é que era de outros mundos. Seus olhos enxergavam este mundo imenso, hipertenso como nas pinturas do expressionista de desenho e cores fortes. A primeira vez que viu um Van Gogh, numa dessas coleções de história da arte, chorou por três dias consecutivos. Entendeu profundamente os traços e as cores da rudeza sombria dos homens desse mundo.
Estudou Letras na faculdade. Odiou tudo aquilo. Já havia lido o que curso exigia e não entendia os teóricos que tentavam explicar a inexplicável volúpia da inspiração de um autor. Nessa época conhecera Romeu. Apaixonara-se mais pela possibilidade de ser Julieta do que pelo promissor estudante de engenharia chamado Romeu Augusto. Chegaram a ficar noivos. Com ele perdeu a virgindade. No entanto, somente anos mais tarde que se tornaria mulher com um jovem poeta dez anos mais jovem. Sexo para Maria Helena era muito mais que fazer amor. Era criar poesia, palavra a palavra, com o doce balanço da cadência das rimas perfeitas, sonoras, imagéticas. Dessa maneira sentia-se plena. Não lembrava mais o nome do jovem poeta, mas com nitidez recitava, causando-lhe arrepios, ainda hoje, cada palavra da poesia sussurrada no momento de prazer. Terminou o noivado. Aparentemente, por um motivo banal. Na realidade foi ao se dar conta da vida medíocre que lhe esperava a fez desistir. Seria uma vida normal, como de toda dona de casa. O cotidiano de cuidar do lar e dos filhos, das contas a pagar, aquelas chatas reuniões de família no final de cada ano e, sobretudo, suportar os conselhos da cunhada psicóloga. Tereza Cristina, irmã de Romeu, teimava olhar a vida entre aqueles que são normais e os que não são. Maria Helena se questionava o que era ser normal? Bastou para romper o compromisso. Seu mundo não era aquele.
Formada, trabalhava como tradutora de Língua Francesa. Conhecia tudo da cultura francesa: música, autores, pintores, culinária, história das cidades, costumes. Tudo o que os livros ensinaram. Uma vez seu Aurélio lhe ofereceu uma viagem a Paris. Recusou. Não precisava ir à França para conhecer os franceses. Balzac lhe contara o que precisava saber.
Amadureceu. Não era uma mulher amarga e recalcada como supunham alguns insensíveis por não ter constituído uma tradicional família, ou por ter uma vida simples de pouco luxo. Não era vaidosa. Vestia-se de acordo com o romance que acabara de ler. Era uma mulher sem tempo definido, atemporal. Maria Helena não era feia nem bonita, mas tinha uma postura elegante, suave e harmônica. Sua fisionomia era como uma daquelas capas duras e lisas de um novo livro. Meio enigmático, do qual não temos idéia do que vamos encontrar em suas páginas. Suas atitudes dependiam da leitura do momento: lia um clássico grego, sentia -se uma heroína, forte, altiva; lia um Oscar Wilde, era o sarcasmo que tomava conta dela; lia Machado de Assis e, em Dom Casmurro, tornava-se Capitu. Maria Helena era Maria Helena, única. Gostava de si e do mundo que escolhera para viver. O mundo da literatura. As pessoas do outro mundo é que se incomodavam com sua forma de viver. Viviam tecendo teorias e mais teorias sobre o motivo que a levara a tal recolhimento. Não, não era introspecção, era uma visão diferente da vida, um olhar literário de viver.
Certa vez, numa daquelas costumeiras visitas à Academia Brasileira de Letras, um Imortal aconselhou-a a escrever. Pois com tal conhecimento literário certamente escreveria um romance muito bom. Ela ofendeu-se. Não por ela, mas sim pelos escritores que tanto amava. Nem poderia imaginar o que Machado diria ao ouvir tal disparate!
Vivia sozinha no antigo casarão da família. Era uma casa de muitos cômodos e uma enorme biblioteca organizada pelo pai para seus estudos teóricos sobre a língua portuguesa. Seu Aurélio não gostava de se afastar das filhas, por isso construiu a imensa casa, mais para receber ilustres pensadores do mundo das letras do que propriamente para abrigar um lar. Ali, ela se sentia em seu mundo. Tinha seus amados livros, suas reflexões, as coisas de seu pai, suas recordações.
Fazia cinco anos da morte do pai e restava, pendente uma questão sobre a partilha da casa. As irmãs desejavam vende-la. Tentavam, sem sucesso, há cinco anos achar um comprador. Maria Helena não era afeita a essas coisas práticas da vida, não entendia por que vender a casa que abrigava em cada cômodo um momento de sua vida. Nem lembrava mais dessa situação não resolvida, tinha outras coisas para fazer: ler.
Em verdade, a casa estava muito desgastada pelo tempo e precisava de muitos reparos, além de pagar os impostos atrasados. Sendo uma casa de muitos cômodos sua manutenção era dispendiosa. Maria Helena usava praticamente apenas três peças do velho casarão: a cozinha para refeições rápidas e econômicas, seu quarto para dormir e trocar de roupas e a biblioteca, onde lia, refletia, enfim, vivia sua vida. Por isso ela só cuidava da manutenção dessas preferidas dependências, sobretudo a biblioteca. As demais peças do casarão ficavam esquecidas, fechadas e cobertas com os antigos lençóis brancos ainda do tempo de sua mãe.
Com a morte do pai ficou a cargo de Branca, mulher com os dois pés enterrados no chão, a administração do “elefante branco”, como ela se referia ao velho casarão. Casada com Haroldo, homem de pouca atitude, e mãe de dois filhos que viviam às suas custas: Júnior, sempre empreendendo um novo negócio que invariavelmente fracassava e Jurandir, rapaz pacato, bonzinho mas de inteligência curta. Puxara ao pai. Branca era quem decidia por toda a família. Com certa razão tinha urgência na venda do casarão.
Alice também queria a venda. Nem tanto para pagar as dívidas do imóvel, mas para fugir de sua culpa inconsciente da morte da mãe. Vivia viajando e trocando de relacionamentos. Fugindo sempre de sentimentos profundos, que pudessem denunciar a falsa imagem de mulher moderna e segura, escondendo a frágil menina órfã. Com a venda do bem faria um curso de pós-graduação em Nova York e se livraria dos laços familiares tão presente naquele velho casarão.
Era uma tarde muito fria de inverno rigoroso. Daquelas em que dá vontade de sentar numa velha poltrona e, enrolada na manta xadrez, beber em goles pequenos, chá de hibiscos e ler romances russos. Era exatamente o que Maria Helena pretendia fazer quando a campainha soou. Antes de se abalar escadaria abaixo, espiou pela janela. A biblioteca que ocupava todo o último andar da casa, além de abrigar os dez mil e duzentos exemplares (desde a última contagem), tinha vasta iluminação. No centro uma grande mesa retangular de jacarandá, ao fundo a lareira, algumas cadeiras e poltronas. Tapetes persas, desgastados pelo tempo, cobriam o assoalho de madeira corroído pelos cupins. E grandes janelas para aproveitar ao máximo a luz natural. Maria Helena viu da janela, à espera na porta de entrada, Alice e Branca.
Seu primeiro sentimento foi de alegria. Fazia algum tempo que não via as irmãs. Mas, aos poucos, enquanto descia os degraus da escadaria certo receio apoderou-se dela.
De fato tinham novidades. As irmãs a cumprimentaram como sempre: beijos pouco afetuosos a e um olhar de “ave de rapina” examinando cada detalhe desde o fio do cabelo ao dedo do pé.
Alice, sempre ansiosa, foi logo falando:
- Temos um comprador para casa!
- Ele virá amanhã. Acrescentou Branca olhando o hall, as paredes e o teto, tentando imaginar qual a impressão o comprador teria do velho casarão.
Maria Helena não disse nada naquele instante, ficara pálida, sentia o corpo gelar. Calara-se tentando recuperar-se da “boa nova”. Convidou as irmãs para subirem à biblioteca, seria mais confortável e quente para conversarem.
Subiram em silêncio a escadaria. Cada uma com seus pensamentos: Branca contente com a possibilidade de se livrar da responsabilidade administrativa da casa; Alice, por enterrar de vez qualquer vestígio de família e Maria Helena consternada, sentindo o chão abrir-se a seus pés. Após os dois lances, entraram na biblioteca. Recompôs-se com segurança, afinal era seu ambiente natural.
Sentaram-se frente à lareira. Maria Helena iniciou a conversa:
- Expliquem melhor essa história de comprador. Quando ele vem mesmo?
- Maria Helena não se faça de desentendida! Você sabe muito bem que estamos há cinco anos tentando vender essa casa! Não temos mais como mantê-la. Os impostos estão atrasados e os juros subindo. Daqui a pouco teremos que entrega-la ao governo para saldar a dívida. Também não temos dinheiro para manutenção. Nem é mais manutenção que está casa precisa. Precisa ser restaurada! Restaurada, Maria Helena. O comprador vem amanhã. É seu Antônio, amigo de papai. Lembra dele?
- Seu Antônio? No momento não lembro não. E você, Alice, não diz nada?
- Eu só quero pegar a grana e partir para Nova York! Tem um curso de MBA fantástico, imperdível mesmo! Será um grande upgrade em minha carreira.
- Pois eu não concordo! - Falou taxativa.
- Como não concorda?! - Branca e Alice ao mesmo tempo.
- Não concordo mesmo. - Caminhando até uma das janelas e olhando para o passado e em tom dramático continuou. De maneira alguma. Há tantas lembranças, tantos momentos vividos, toda nossa história está aqui. Vocês não enxergam?
- Maria Helena! – Branca gritando e a puxando pelo braço para fazê-la retornar a realidade. Não podemos mais manter esse elefante branco. Seu Antônio quer pagar dez vezes o valor que pedimos. Dez vezes! Você sabe o que significa isso?!
- Maria Helena, com esse dinheiro você poderia comprar todos os livros que desejar. Sei lá, sair desse seu mundinho. – Alice argumentava. - Melhor ainda, comprar roupas novas, se cuidar um pouco, se divertir, sair. Você só fica encerrada nessa casa, lendo e lendo.
- Não é verdade! Eu saio sim. Vou, vou à biblioteca municipal, ao shopping, naquela livraria nova, enorme. E também à academia.
- Academia! - as irmãs entreolharam-se surpresas.
- Mas acho que não está funcionando muito Maria Helena, você continua com esse culote bem acentuado. Observou Branca com sarcasmo.
- Mas do que vocês estão falando? Estou falando da Academia de Letras.
- Ah bom.
Sentaram-se em silêncio.
Maria Helena sabia que não teria argumentos suficientes para demovê-las da idéia de vender a casa. Afinal era muito dinheiro. Quem sabe construiria sua biblioteca dos sonhos. Quem sabe. Ao final concordou. As irmãs partiram imaginando como gastar o dinheiro. Branca ajudaria o filho a pagar as dívidas do último sensacional investimento e depois, viajaria com o marido. Alice, já de malas prontas, fugiria para Nova York e não voltaria mais.
Maria Helena ficou só. Mais só do que mais imaginara estar. Iniciou a leitura sentada na poltrona predileta.
Entre o passar de olhos de uma folha e outra as lembranças foram tomando –lhe conta. Lembranças de toda uma vida. Uma vida de leitura, uma vida de ficção? Talvez uma vida de faz de conta? Que outra vida poderia ter vivido? Tais questionamentos brotavam agora em seu pensamento. Nunca tivera dúvidas de seu modo de viver. Em verdade jamais desejou outra forma de viver. Agora com a iminente mudança via-se com essas filosofias existenciais. No entanto, aquilo começou a tomar conta dela. De tal modo que levantou bruscamente da cadeira, deixando Os Irmãos Karamazov cair ao chão. Caminhou resoluta até uma das prateleiras. Parou por alguns instantes. Como se procurasse por uma obra específica. E, como tomada por uma fúria, arrancava-os das prateleiras. Atirava-os ao chão com raiva e ódio. Depois pisou-os com força como querendo apagar as histórias ali escritas. Já perdendo as forças de tanta energia gasta num último gesto, antes da última frase, pegou os fósforos que ficavam ao lado da lareira, algumas folhas de jornais velhos e ateou fogo em seus amados livros de outrora. Ficou no meio deles. Viu cada uma das obras pegando fogo. As capas contorcendo-se, folhas estalando e a fumaça apoderando-se de tudo. Foi subindo, subindo e quando o cinza envolveu todo o recinto, Maria Helena não viu mais nada.
Na manhã seguinte, na rua, frente aos escombros do velho casarão, Branca, Alice e seu Antônio. Todos em silêncio. Seu Antônio ao ver o futuro investimento de uma casa de jogos clandestina em cinzas, partiu sem dizer muitas palavras. Branca retomando o prumo avisou que trataria da burocracia para retirar os escombros do local. E, Alice sentindo–se liberta e mais leve lembrou de Maria Helena. Pensou o que escreveriam no obituário: “causa- mortis”, literatura “in extremis”?
Nanoconto antigo. ISADORA D.
Sin motivo aparente. ELENA MÉNDEZ
Um anel. MARIA DILMA PONTE DE BRITO
O fantástico mundo dos sonhos. ARTUR SOARES NUNES
Estou voltando (um conto africano). AGAMENON TROYAN
O senhor maravilha. CAIO RICARDO BONA MOREIRA
O fantasma da enciclopédia ou a maior história do mundo. CAIO RICARDO BONA MOREIRA
Pegadas. CARLOS EDUARDO LOUZADA MADEIRA
A ventania que fere a pele. SAMARA INÁCIO
Uma cadela chamada Bilina. ADENIZE FRANCO
Vômito de luz - CARLOS EDUARDO LOUZADA MADEIRA
Ranhuras e um breve suspiro - CARLOS EDUARDO LOUZADA MADEIRA
Em letras garrafais, leu: WELLINGTON DE MELO
Exame de rotina. PAULO DA LUZ MOREIRA
Inventário. SAUL MELO
Estrada. ANA CAROLINA CARVALHO
A Taberna. ANDERSON ONOFRE
Entre sábado e domingo. ANDERSON ONOFRE
O cansaço chegou. MARIÂNGELA ALONSO
Porque gente não voa. LUÍS BUSTAMANTE
Estória de Leitura. LUCIENE OLIVEIRA
Perfume essencial. SAUL MELO
O iceberg. LUÍS BUSTAMANTE
O coração na calçada. MARIÂNGELA ALONSO
Brasa. ANA MARIA ABRAHÃO
Saldo devedor. ANA MARIA ABRAHÃO
Deus ex machina pós-moderno. ISADORA DUTRA
O porteiro. ANA PAULA KLAUCK
Coquetel Molotov. MARJORIE RODRIGUES
Metonímia. MARJORIE RODRIGUES
Sobre robôs. GABRIELA FARIAS DA SILVA
Dentro da noite escura. ANGELITA SANTOS DA SILVA
A longo prazo, não há escolhas. ANDERSON ONOFRE
Hikikomori. ANDERSON ONOFRE
Cachorra! THAIS KUPERMAN LANCMAN
A da garota que desviou. THAIS KUPERMAN LANCMAN
O Poeta e o Esfomeado. ANGÉLICA OMIZZOLO
À Procura. JULIO DOMINGUEZ AGUILAR
O predador. ANA MARIA ABRAHÃO
O céu não tem som. JUCIMARA GARBOS
O diário íntimo. RAFAEL BEZERRA SIMÃO
Os demônios. RAFAEL BEZERRA SIMÃO
O Preferido. FABIO VARELA
O príncipe encantado contemporâneo. SANDRA REGINA KRULICOSKI
Insight, ANDERSON ONOFRE
Você tem Orkut?, MARIA DILMA PONTE DE BRITO
História para ninar crianças dos outros — ÍTALO OGLIARI
My Funny Valentine, Ygor Moreti Fiorante
Beco sem saída, Adérito Mazive
Pinóquio e a menina de lata, MARCOS VINÍCIUS ALMEIDA
O sorvete de framboesa, LEANDRO FONSECA
Copo quebrado, MARIÂNGELA ALONSO
Desblogado cangaceiro, Isadora
Uma faixa preta na fila, Manoel Barreto Júnior
O Valor do lixo, Mariângela Alonso
Like a rolling stone, Jeferson Jacques