Criação
Tire agora da gaveta os seus contos, crônicas, poesias e outras criações para que os leitores da Palpitar possam conhecer mais uma revelação do mundo da literatura.
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INSIGHT
Anderson Onofre
Eles costumavam proclamar o apocalipse. Nas igrejas e nas ruas. Um cometa. Aquecimento global. Aids. Gripe do frango. Os cavaleiros do apocalipse. Anjos, trombetas, e não sai o que mais. Sempre gostaram de glamour. Atos grandiosos, apesar do dia-a-dia sempre provar o contrário. Passeio no parque com a namorada. Brincar com os filhos. Acampamento com os amigos. Engraçado, até entendo um pouco de álgebra. O apocalipse veio, e eu tive muito a ver com isso. Talvez risse ou chorasse, se pudesse. Isso tudo é muito irônico. Posso perceber. Isso tudo é muito engraçado. Talvez dissessem. Não posso perceber. Nasci com um problema no lobo frontal. Repare em como sempre interagiram tão bem, todos eles. Repare em como estou isolado no canto, torcendo para ser invisível. Não sinta pena. Ser ignorado me deixaria feliz, se meu lobo frontal fosse normal. Não sinta pena, eu não posso sentir pena de você, nem de mim, nem de todos os outros que se foram por minha causa. O bom disso tudo é que não posso me sentir culpado. Sinto algumas coisas, mais relacionadas à percepção propriamente. Meu paladar é muito apurado, talvez pra compensar a falta de emoções. Mas não gosto daquela merda de comida refinada. Eu mataria por Doritos. Não estou brincando. Sei que deve parecer estranho pra você, mas mataria mesmo. Não sentiria remorso, simplesmente porque não posso sentir. Sei que deve parecer inconcebível pra você, mas, pra mim, um pacote de Doritos vale muito mais que meu colega de trabalho, ou meu colega de classe. Todos costumavam rir dos programas de auditório. Costumavam rir de mim. Não sentia raiva. Não sentia nada. Às vezes, queria ter medo. Queria ficar ansioso antes de falar em público. Queria me sentir feliz quando elogiado. Queria gostar mais dos membros da minha família do que de comer tacos. Mexicanos safados. Eu mataria por tacos. Por que nunca o fiz? Porque eu seria preso e dizem que a comida na cadeia é uma droga. Você deve estar se perguntando o que isso tudo tem a ver com o apocalipse. Vocês todos são tão chatos e iguais. Suas perguntas e prioridades são tão chatas e iguais. Se eu pudesse, sentiria raiva de vocês. Se pudesse, riria também enquanto a maioria de vocês se contorcia ao chão, gargalhando até a morte. No começo isso tudo foi tão estranho, ver aquele olhar de desespero, enquanto a boca insistia em mostrar os dentes. Risos. O diafragma devia doer. Risos. Os músculos faciais deviam doer. Risos. O cérebro em desespero clamando por oxigênio. Risos. Uma noite aleatória sonho com esta frase. Não tem nenhum sentido para mim. Saio para o trabalho e vou almoçar com essa porcaria martelando em minha cabeça. Um cara, que trabalha na mesma sessão em que eu, está dividindo a mesa comigo. O jeito como ele mastiga, de alguma forma, reduz meu apetite. Ofegante, tritura e engole. Não sabe apreciar a droga da comida; se pudesse, aposto que engoliria o alimento inteiro. Quase nunca puxo conversa. Há exceções. Pergunto se já sonhou com uma frase. Ele diz que não. Lembro de um navio. Havia uma porcaria de um navio no sonho. O céu estava escuro. Tempestade. Um velho marinheiro. Dentes de ouro. Será que vou receber a droga do aumento? Queria alugar um apartamento mais alto, a merda dos carros não param de passar a noite toda. Um velho marinheiro. Dentes de ouro. Um papagaio ao ombro. O papagaio diz a tal frase. Meu colega não está ouvindo porra nenhuma do que estou falando. Tritura e engole. Conto a frase. Ele arregala os olhos por um momento, então a catarse. O clímax. O êxtase. O orgasmo. As primeiras gargalhadas saem altas. Agora está caído ao chão. Se contorce. Parece um ataque epilético. Ouço o riso ficando mais baixo. Não posso vê-lo de onde estou sentado, a mesa encobre a visão. Alguém está o socorrendo. Há pavor nos rostos. Estou comendo meu bife a parmegiana com purê de batatas. A carne é mais macia enquanto quente. Não ouço mais risos e todos me olham e me questionam. Olhares acusadores. Não direi nada até acabar minha refeição. Não vou apressar meu ritmo. Pronto. Posso responder. Não sei o que houve. Arroto. Ele não sabia nem comer. Contei um sonho estúpido. Por que vocês têm que ser tão chatos? Falo do marujo. Da tempestade. Do papagaio idiota. Digo a frase. Sou o anjo do apocalipse. Todos tombam ao chão se contorcendo em risos. Que cena bizarra. Minha trombeta anunciando o fim dos tempos é uma frase estúpida dita por um papagaio num sonho. Uma vez, morei perto da casa de uma velha que ensinava palavrões para o seu papagaio. Nunca tive animais de estimação. Talvez seja por isso que não sou casado, se é que você me entende. O episódio mexe comigo. Se eu fosse visitar minha família, talvez ainda pegasse todos reunidos à mesa. Frango. Salada. Macarrão. Irmãos. Pai. Mãe. Tia. Falar ou não falar? Alguém pergunta se ainda estou solteiro. Alguém pergunta se ainda estou no mesmo cargo. Alguém pergunta se não quero salada. Eu já tenho salada no meu prato. Não me contenho. Não que tenham realmente me deixado irritado. De qualquer forma, sei que, se eu pudesse me irritar, aquilo me irritaria. Conto que tive um sonho estranho. Talvez essa seja pelo Complexo de Édipo. Falo de um velho marinheiro com dentes de ouro. Talvez seja por ter que comer verduras antes da sobremesa. Falo de um papagaio idiota que ele trazia ao ombro. Talvez seja por ter que estar sempre arrumadinho, como a droga do coroinha do ano. Falo sobre o céu escuro... tempestade. Talvez por sempre ter que esperar que alguém use o banheiro... e cague fedido. Conto a frase estúpida dita pelo papagaio. Talvez por nunca ter sentido raiva disso tudo. Risos. Um quadro estranho. Soa como se eu estivesse integrado. Como se tivesse contado uma piada. Uma anedota engraçada como todos fazem. Algo divertido como nunca fiz. Mas ninguém vai me dar um tapinha nas costas. Ninguém vai me dar parabéns pela piada. Ninguém vai passar aquela frase idiota adiante numa reunião de amigos. Ninguém vai sair vivo da cozinha. Barulhos contínuos atrapalham meu apetite e minha digestão. Espero os risos cessarem e pego um frango empanado. Uma última oportunidade. Minha mãe fazia frango empanado como ninguém. Poder. Sinto-me entorpecido de alguma forma. Todos parecem tão frágeis agora. Como se tivesse que cuidar para não pisar neles. Para não esmagá-los sem querer. Uma distração e poderia deixar a frase escapar na fila do supermercado. A polícia vem a minha casa pedindo um depoimento a respeito das mortes. Eles não vão querer saber. Digo a frase. Semeio a morte. A TV local me procura. Digo que só dou declaração se for ao vivo. Terrorismo. Assassinato em massa sem alvo definido. A repórter era bonita. Alguma parte de mim considera aquilo um desperdício. O que houve afinal, ela pergunta. Imagino os telespectadores em casa. Jantando com a família. Tomando uma cerveja após um dia duro de trabalho. TV ligada enquanto acaba a lição de casa ou um relatório. Ouvindo o telejornal enquanto estão cagando. Ouvindo a droga do noticiário enquanto estão fazendo sexo. Enquanto cortam cenouras em rodelas para preparar uma sopa que jamais será acabada. Essa era uma vantagem de se morar numa metrópole. As possibilidades eram diversas e eu jamais iria conseguir supor todas elas. Imaginei-me visitando as casas no dia seguinte, tentando descobrir o que faziam quando ouviram a frase. Soava como um bom passatempo. Senhor... o que houve afinal, insiste a repórter. Adeus, jovem repórter. Adeus, caros telespectadores. Pulo a parte do velho marujo. Do papagaio idiota. Digo direto a frase. Deixo para trás a repórter e o câmera se debatendo no chão. Vou para casa. Estou cansado. Você deve estar curioso para saber que frase é essa. Você quer saber? Aposto que você morreria de rir. Será que acabei de fazer uma piada? Será que foi engraçado? Será que foi engraçado? Bem, que diferença faz.
Nanoconto antigo. ISADORA D.
Sin motivo aparente. ELENA MÉNDEZ
Um anel. MARIA DILMA PONTE DE BRITO
O fantástico mundo dos sonhos. ARTUR SOARES NUNES
Estou voltando (um conto africano). AGAMENON TROYAN
O senhor maravilha. CAIO RICARDO BONA MOREIRA
O fantasma da enciclopédia ou a maior história do mundo. CAIO RICARDO BONA MOREIRA
Pegadas. CARLOS EDUARDO LOUZADA MADEIRA
A ventania que fere a pele. SAMARA INÁCIO
Uma cadela chamada Bilina. ADENIZE FRANCO
Vômito de luz - CARLOS EDUARDO LOUZADA MADEIRA
Ranhuras e um breve suspiro - CARLOS EDUARDO LOUZADA MADEIRA
Em letras garrafais, leu: WELLINGTON DE MELO
Exame de rotina. PAULO DA LUZ MOREIRA
Inventário. SAUL MELO
Estrada. ANA CAROLINA CARVALHO
A Taberna. ANDERSON ONOFRE
Entre sábado e domingo. ANDERSON ONOFRE
O cansaço chegou. MARIÂNGELA ALONSO
Porque gente não voa. LUÍS BUSTAMANTE
Estória de Leitura. LUCIENE OLIVEIRA
Perfume essencial. SAUL MELO
O iceberg. LUÍS BUSTAMANTE
O coração na calçada. MARIÂNGELA ALONSO
Brasa. ANA MARIA ABRAHÃO
Saldo devedor. ANA MARIA ABRAHÃO
Deus ex machina pós-moderno. ISADORA DUTRA
O porteiro. ANA PAULA KLAUCK
Coquetel Molotov. MARJORIE RODRIGUES
Metonímia. MARJORIE RODRIGUES
Sobre robôs. GABRIELA FARIAS DA SILVA
Dentro da noite escura. ANGELITA SANTOS DA SILVA
A longo prazo, não há escolhas. ANDERSON ONOFRE
Hikikomori. ANDERSON ONOFRE
Cachorra! THAIS KUPERMAN LANCMAN
A da garota que desviou. THAIS KUPERMAN LANCMAN
O Poeta e o Esfomeado. ANGÉLICA OMIZZOLO
À Procura. JULIO DOMINGUEZ AGUILAR
O predador. ANA MARIA ABRAHÃO
O céu não tem som. JUCIMARA GARBOS
O diário íntimo. RAFAEL BEZERRA SIMÃO
Os demônios. RAFAEL BEZERRA SIMÃO
O Preferido. FABIO VARELA
O príncipe encantado contemporâneo. SANDRA REGINA KRULICOSKI
Uma mulher singular, ANA ELISA PRATES
Você tem Orkut?, MARIA DILMA PONTE DE BRITO
História para ninar crianças dos outros — ÍTALO OGLIARI
My Funny Valentine, Ygor Moreti Fiorante
Beco sem saída, Adérito Mazive
Pinóquio e a menina de lata, MARCOS VINÍCIUS ALMEIDA
O sorvete de framboesa, LEANDRO FONSECA
Copo quebrado, MARIÂNGELA ALONSO
Desblogado cangaceiro, Isadora
Uma faixa preta na fila, Manoel Barreto Júnior
O Valor do lixo, Mariângela Alonso
Like a rolling stone, Jeferson Jacques