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Conto

O predador

 
Ana Maria Abrahão*
 
 
   Sentia-se tão só, mas tão só que imaginava tratar-se de uma sensação permanente, sem volta.
   A solidão é assim. Chega e se apodera dos seres. E mergulhados nela até o pescoço, como se estivéssemos afundando na areia movediça, não vemos saída, só mesmo numa perspectiva negativa da vida, do mundo.
   Era o que Pablo sentia. Ele, um homem, sofrendo de solidão. Parece incrível que numa sociedade de “machos caçadores”, um deles fique sozinho. Mas acontece. Aí está. “Predador” e só. Parece que a “caça” está cada vez mais difícil. Ou será que o “caçador” perdeu toda a sua habilidade? A fonte secou? Ou o “caçador” ficou mais exigente e por isso escolhe com mais critério? Talvez...
   O famigerado “galinha” que “traçava” todas resolveu (ou foi obrigado a) se “aposentar”. Agora selecionava com mais critério a sua “presa”, talvez por ter se cansado de andar por aí, de galho em galho e ao mesmo tempo, não conseguir realizar-se, não encontrar um porto seguro (E ele precisava disso?).
   Ligou para todas aquelas que sempre saíam com ele. Rodou a cidade, parou em todos aqueles points que sempre freqüentou e ...nada. Dois meses completamente sozinho, “secura” total...
   Nunca pensara em se casar. Entretanto, naquele momento, seus valores até poderiam sofrer uma transformação... Mas, não... Casamento, nem pensar! Ou será que agora, à beira dos 40, isso poderia ser, digamos, viável?
   Mas a verdade é que nunca se sentira tão só como naquele momento...
   Qual era mesmo o telefone daquela amiga que já havia se declarado várias vezes, e que era apaixonadíssima por ele até há pouco tempo atrás?
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*Mestre em Literatura Brasileira e teorias da Literatura pela Uff/RJ. Membro do grupo de estudos Nação-narração – Uff/CNPq. Ministra oficinas de literatura no SESC – Unidade Três Rios/RJ.



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