Header - Palpitar Palpitar - Home

Criação

    Tire agora da gaveta os seus contos, crônicas, poesias e outras criações para que os leitores da Palpitar possam conhecer mais uma revelação do mundo da literatura.

Escolha a categoria
conto
crônica
exposição fotográfica
poema
prosa poética


imagem - fale conosco  Publique Aqui.

Conto

O Poeta e o Esfomeado

 
Angélica Omizzolo
 
 
            Era uma noite fria. Os primeiros raios do sol davam o ar de sua graça. O mar estava calmo e sereno, diferente do rebuliço que acontecia na areia. A praia enchia-se de curiosos com uma rapidez e eficiência só comparada àquela causada pela ânsia de ver tragédias.
            Em meio ao tumulto organizado encontrava-se o motivo de tal agitação. Estirada encantadoramente na areia, estava uma sereia. Parecia Ariel deitada em seu leito, vinda dos mares de Poseidon. Em torno dela, dois homens discutiam fervorosamente, o Poeta e o Esfomeado.
            O poeta era um sonhador. Andava pela cidade, carregando seu velho caderno de poemas, sempre em busca da inspiração. Havia saído de casa, naquela manhã, certo de que a encontraria. Andando sem rumo pela praia, foi dar com a bela sereia. Ele a fitava com idolatria, pois nunca tinha visto metade tão bela de mulher.
—Eis minha musa!
            Tão cego de admiração, não percebeu que outro homem a olhava com os mesmo olhos. E antes que pudesse recolher a musa, o outro interveio, começando assim a discussão.
            Esfomeado era sofrido, morador de rua, maltrapilho e também andava todos os dias pela cidade, não em busca de inspiração, mas sim de comida. Olhava para a sereia, especialmente para a metade peixe, com admiração e frieza.
            —Tenho fome!
            Ambos a desejavam com intensidade, mas para fins completamente diferentes.
            —Vou levá-la – dizia o Poeta – Vi primeiro! Será minha inspiração e assim continuarei a criar arte.
            —Eu é quem vou levá-la, Poeta! Quem precisa de arte? Preciso saciar a minha fome e a de meus amigos – retrucava Esfomeado.
            —Todos precisam de arte! A arte é a essência da humanidade, é a marca que a vida deixa no tempo. Conhecemos as épocas, civilizações e pessoas pela arte e pelos sonhos que têm. Toda arte um dia foi sonho de quem a fez e todos precisamos sonhar.
            —Não se vive de arte e muito menos de sonhos. Vivemos num mundo real e cruel. A realidade nos obriga a sufocar nossos sonhos para sobreviver. Temos fome, sede e frio. Não nos é permitido sonhar!
            O debate à moda Platão continuava, até que para resolver o impasse, alguém gritou do meio da platéia:
            —Repartam a sereia!
            A idéia foi bem aceita por todos. Enquanto os curiosos esperavam e a sereia inerte dormia, alguém pos-se a buscar um instrumento para reparti-la.
            O menino acordou sobressaltado. Estava frio. Os raios de sol, já altos, alcançaram seu rosto apoiado no banco. Olhou de relance para a praia, às suas costas. Não havia sereia. Sentou-se, pegou seu caderninho de rimas com o toco de lápis que lhe restara. ‘Pobrezinha da sereia.’ Iria até a praça declamar algumas rimas, se estivesse com sorte ganharia algumas moedas para o almoço. Levantou-se e foi, de mãos dadas com o Poeta e o Esfomeado.


Veja também nesta categoria
GF e GF na expansão do império. AIDA O. Duarte
Nanoconto antigo. ISADORA D.
Sin motivo aparente. ELENA MÉNDEZ
Um anel. MARIA DILMA PONTE DE BRITO
O fantástico mundo dos sonhos. ARTUR SOARES NUNES
Estou voltando (um conto africano). AGAMENON TROYAN
O senhor maravilha. CAIO RICARDO BONA MOREIRA
O fantasma da enciclopédia ou a maior história do mundo. CAIO RICARDO BONA MOREIRA
Pegadas. CARLOS EDUARDO LOUZADA MADEIRA
A ventania que fere a pele. SAMARA INÁCIO
Uma cadela chamada Bilina. ADENIZE FRANCO
Vômito de luz - CARLOS EDUARDO LOUZADA MADEIRA
Ranhuras e um breve suspiro - CARLOS EDUARDO LOUZADA MADEIRA
Em letras garrafais, leu: WELLINGTON DE MELO
Exame de rotina. PAULO DA LUZ MOREIRA
Inventário. SAUL MELO
Estrada. ANA CAROLINA CARVALHO
A Taberna. ANDERSON ONOFRE
Entre sábado e domingo. ANDERSON ONOFRE
O cansaço chegou. MARIÂNGELA ALONSO
Porque gente não voa. LUÍS BUSTAMANTE
Estória de Leitura. LUCIENE OLIVEIRA
Perfume essencial. SAUL MELO
O iceberg. LUÍS BUSTAMANTE
O coração na calçada. MARIÂNGELA ALONSO
Brasa. ANA MARIA ABRAHÃO
Saldo devedor. ANA MARIA ABRAHÃO
Deus ex machina pós-moderno. ISADORA DUTRA
O porteiro. ANA PAULA KLAUCK
Coquetel Molotov. MARJORIE RODRIGUES
Metonímia. MARJORIE RODRIGUES
Sobre robôs. GABRIELA FARIAS DA SILVA
Dentro da noite escura. ANGELITA SANTOS DA SILVA
A longo prazo, não há escolhas. ANDERSON ONOFRE
Hikikomori. ANDERSON ONOFRE
Cachorra! THAIS KUPERMAN LANCMAN
A da garota que desviou. THAIS KUPERMAN LANCMAN
À Procura. JULIO DOMINGUEZ AGUILAR
O predador. ANA MARIA ABRAHÃO
O céu não tem som. JUCIMARA GARBOS
O diário íntimo. RAFAEL BEZERRA SIMÃO
Os demônios. RAFAEL BEZERRA SIMÃO
O Preferido. FABIO VARELA
O príncipe encantado contemporâneo. SANDRA REGINA KRULICOSKI
Insight, ANDERSON ONOFRE
Uma mulher singular, ANA ELISA PRATES
Você tem Orkut?, MARIA DILMA PONTE DE BRITO
História para ninar crianças dos outros — ÍTALO OGLIARI
My Funny Valentine, Ygor Moreti Fiorante
Beco sem saída, Adérito Mazive
Pinóquio e a menina de lata, MARCOS VINÍCIUS ALMEIDA
O sorvete de framboesa, LEANDRO FONSECA
Copo quebrado, MARIÂNGELA ALONSO
Desblogado cangaceiro, Isadora
Uma faixa preta na fila, Manoel Barreto Júnior
O Valor do lixo, Mariângela Alonso
Like a rolling stone, Jeferson Jacques