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Conto

A da garota que desviou

 
Thais Kuperman Lancman
 
 
Seta para a esquerda, Patrick. Não faz diferença ir rápido ou devagar, chegar é inevitável. Quando foi mesmo que passei por essa estrada, à noite? Você ficava guardado, me esperando, era essa mesma sensação, vida antiga se aproximando. Vida futura. Merda! Esqueci de separar os trocados.
- Cinco e trinta, senhora.
- Tem desconto pra quem viaja contra a vontade?
- Obrigado e boa viagem.
- Boa....é, boa noite.
Parada a dois quilômetros. A estrada é um tapete, como as pessoas dizem. Escura como deve ser, plana sendo otimista. Acho monótona. Perfeito, já estou ficando com sono, os olhos totalmente abertos? Não. Concentra, presta atenção. Aumenta o jazz. Ah, mas vai valer a pena. Talvez, se eu dormir o primeiro dia todo vou escapar do blábláblá-mudança e do blábláblá-novidades. Aí vai ser como um primeiro encontro. Eu conto do que gosto, da minha rotina – se bem que essa foi pro espaço – e Julie e papai vão falar da vida nova deles também, que desagradável. Entradinha da parada, hora de matarmos a sede, Patrick.
- Café grande, por favor.
- Mais alguma coisa?
- Tem guaraná em pó?
- No corredor ao lado dos sorvetes, senhora.
- Aquele ao lado dos santinhos, em frente do restaurante por quilo e atrás da Casa do Pão de Queijo?
Não gosto quando as pessoas sorriem quando faço piadas sem graça, falsos. Ninguém deveria ser obrigado a sorrir depois das três da manhã.
- Seu café, senhora.
- Tem um copo maior? É que vou fazer umas misturas...
- Aqui está.
Pegada com charme. A chacoalhada de bartender. Estraçalho dois cigarros e misturo o tabaco com o guaraná e o café. Esse é o segredo do Batidão.
- Você é boa nisso, hein garota?
Sempre tem um idiota brincando com a chave do carro na mão e disposto a atrapalhar as horas boas, sozinha.
- É, mas só faço um drink mesmo.
- Ah, que pena, ia fazer o maior sucesso na balada.
Não sorrio. Ninguém vai me obrigar a sorrir depois das três da manhã.
- Isso é só pra não pegar no sono. Funciona sempre.
- Férias na praia?
Vai embora! Some daqui!
- Não, sou de lá. Minha irmã está com câncer, meu pai está de saco cheio de cuidar de mulheres doentes desde que minha mãe ficou doente... então vou lá segurar as pontas e cuidar da pousada que ela abriu ano retrasado, quando ainda era bonita, saudável e não tinha nada a ver com a minha vida.
Agora sim um sorriso forçado providencial. O cara sumiu. Desabafei.
- Mais um café, por favor, vou guardar para a estrada.
Gente simples, nesse fim de mundo. Minha família também é gente simples, boas pessoas, gostam de mim. Bem...gostam naquelas, o suficiente para me dar uma folga durante os cinco anos da faculdade, mais o último ano e meio, mas não a ponto de me deixar para sempre. Eu fui mudando, eles não, mudei demais. Não quero nem ver, eles vão te odiar. Você e o Miles Davis no fundo.
Pequeno, vermelho, meio amassado nos cantos, calota faltando. Bobagem, mas eles vão reclamar. Os três. E aí eles vão olhar dentro, essa sujeira, e depois de fazerem oitocentas piadas parecidas e engraçadinhas estarão cansados e satisfeitos. Será o momento perfeito de lembrar que eu sempre tive o meu jeito esquisito de cuidar das coisas. O meu jeito, as minhas coisas. Você não é a primeira coisa só minha.
Placa de curva perigosa. Jeito bom de chamar atenção, o medo. Não vejo Julie desde que ela descobriu o câncer, e daí em diante foi tudo muito rápido. O solo de bateria bombando nos ouvidos, clarinete, sax. Os primeiros tratamentos, livros que eu mandei por Sedex, a pousada que ela deixou de lado. Aí, o telefone tocou e vim parar aqui, Patrick, correndo o risco de morrer numa curva. Não tiro da minha cabeça a idéia da careca. Não os seus pneus carecas, Patrick, eu conferi isso antes de sair. Não tive coragem de perguntar se ela já está sem cabelo.
E o meu cabelo? Lembro de quando cheguei a São Paulo, loira de cabelos compridos. Uma semana depois, já era ruiva. Foi o meu termo de posse. Não sei ainda de que cor pintarei o cabelo quando chegar, que cortei farei. Vou a ter tempo para cuidar de cabelos longos. Castanhos combinam com dona de pousada. Decidi, amanhã resolvo isso.
Já passei por alguns retornos, desses que nem sempre dão no ponto de partida. Aprendi muito nos últimos anos. Bocejo – alerta para um gole no Batidão. E esse barulho no banco de trás, alguma outra coisa se desencaixou. Você já foi mais quietinho, Patrick. Não sobrou uma fivelinha pra contar a história da cidade grande, nem amigos nem namorado. Todos se perguntam o que aconteceu. A família se pergunta quem é essa estranha quase muda e pigarrenta que veio no lugar da filha querida. Saída com classe, ainda vou virar uma lenda. Assim que eu apagar minha conta de e-mail e criar um novo.
dani@pousadajoaodebarro.com.br
contato@pousadajoaodebarro.com.br
eunaoestouaqui@pousadajoaodebarro.com.br
Dá para fazer um monte de piadinhas. Oitocentas. Engraçadas e tristes, como um palhaço em um circo imenso e vazio. Quando eu pegar no sono... vou sonhar com palhaços com certeza. Que vontade de dormir, Patrick, como pode esse bocejo vir bem agora, do fundo da cabeça? Eu sou a única pessoa no mundo que gosta de dormir; lembrei da Julie, nas manhãs de domingo, quando éramos novinhas. Todo mundo adorava aqueles dias brilhantes ofuscando a vista, aproveitar o máximo de horas, fazendo nada. Achava um saco. Aí a Julie inventava de jogar taco, se esquecendo que precisa de quatro pessoas. Ela sugeria mais outros jogos que precisavam de gente. Acabávamos no dominó.
Era idéia minha.
Meu Deus, daonde veio essa caminhão?
Ultrapassando que nem um louco me jogando para os cantos. Gosto mais de ficar prensada do que solta demais. Meu pai nunca reprimiu. Não precisava, Julie era a “Constituição” da casa. O câncer foi um golpe de estado. Nada de democracia pra gente doente. Nem com Julie, eu que o diga. “Você se ajeita e vem, né?”, só respondi com um “É”. Engraçado como agora vou ficar mais solta, sem os trabalhos da agência, sem qualquer horário de verdade. No limite entre cair do abismo e ficar prensada entre o caminhão e a montanha. Cai não, Patrick, eu quero poder discutir.
Ainda o caminhão do meu lado. É grande e divide o chão da estrada em dois. Em dois mil. Mas nele não cabem nem as minhas dores. Drummond veio com a gente hoje? Convidado especial? O Batidão acabou. Merda! Não enxergo nada para a esquerda. Nem acredito, logo mais chegamos. Não vai dar para viver sem uma estrada monótona para seguir. Por pouco não vejo a ponte. Daqui para a ilha, tanta coisa de mentira; eu prefiro ser inteira do que de verdade, vivendo mentira. A mentira é esse grande nada que eu rejeitei há tanto tempo. Não tenho opção. Patrick, é daqui para água, da água para o fim. Todo o destino. Abro a torneira, vida escorre dela.
Eu escorro também. Ou melhor, saio num jorro forte de super mangueira, como super-heroína. Esse é meu último recado - vem Patrick, eu não faria isso sem você - peixes não ouvem, não dormem, não fazem churrasco. Peixes-palhaço não contam piadas. A anedota acaba aqui.


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