Criação
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Conto
Coquetel Molotov
Marjorie Rodrigues
Começa bem no fundo da barriga, o lugar mais interno do corpo, e vai subindo, subindo até o meio da testa, onde ferve a febre. O corpo em ebulição, como se todo ele fosse recheado de lava quente, borbulhando, as bolhas estourando e subindo em soluços: hic.
"Eis aí a essência da vida. É a raiva, que dura por horas, fica horas fervilhando", disse o rapaz com cara de burguês enquanto preparava um coquetel molotov. O amigo dele tinha os bolsos cheios de pedras, como uma Virginia Woolf que, vomitando água, voltasse ao mundo dos vivos para descarregar toda a fúria que ela pensava ser justo atirar só nela.
Não, ele me dizia, não é o amor o combustível humano. O amor é fugaz, logo estabiliza-se, vira boanoite-boatarde; e mesmo o orgasmo também é pouco, dura poucos segundos. A raiva, ao contrário, persegue-te o dia inteiro. O desejo de vingança, mesmo que nunca posta em prática, nos põe alertas e faceiros e é disto que precisamos para acabar com a exploração no mundo, dizia ele com um sorriso no rosto.
"Mas e depois?", ousei perguntar. Ele quis saber depois de quê, e eu disse: "e depois do fim da exploração?". Ele e o amigo entreolharam-se. Não souberam responder. Talvez porque sequer concebessem um mundo em que não haveria motivo para fazer fogo numa garrafa.
"A paz?", sugeri. "É, talvez isso", disseram os dois, como se eu tivesse acabado de abrir uma saída no beco. Eu quis dizer que não conhecia paz maior do que a que vem depois do orgasmo fugaz, fugidio, o ápice de poucos segundos. O que buscamos a transa toda talvez não sejam os segundos do orgasmo, eu disse, mas sim os longos minutos que o sucedem. A calmaria. O não querer fazer nada nem de mal nem de bem porque há a certeza robusta de que está tudo harmonizado. Ao contrário, a ansiedade, a raiva que se desenrola do lado de dentro do umbigo, esse bicho que segue encaracolando quente na gente, ele não passa é de um esfaimado que, se deixar muito tempo, acaba nos comendo.
Lasquei nele um beijo. Dominei minha própria repulsa (havia nele algo de muito repulsivo, mas era um bem que eu fazia à humanidade: afinal, não é a intolerância nada menos que asco não dominado?) e beijei-o com o amor que sentia não por mim, mas por todas as coisas boas de que me lembrava, como as tardes no parque fazendo bolotinhas de areia, os grãos fininhos se intrometendo no chinelo, coçando-me os dedos; como ficar sentada no banco debaixo da árvore, enquanto a rádio-poste tocava as modinhas do interior; como colher as margaridas do meu antigo jardim e esquecer-se de que convencionou-se dizer que têm cheiro de morte; como sentir a onda bater nos ombros, de leve, assim-assim. Quem sabe ele sentisse o amor. Ele ferve assim, vê? Mas é devagarinho. Dá tanta ou mais comichão do que a raiva, só que tem o ponto de ebulição mais alto. É como o metal. Demora, mas é mais resistente, ele persiste, persiste. Vai derretendo lento-lento. Vê?
Descolei meus lábios dos dele, mas ele nem viu nada. Soltou foi um berro de fera e atirou o molotov lá longe, lá para de onde vinha a tropa de choque.
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