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Conto

Metonímia

 
Marjorie Rodrigues
 
 
Nunca tinha visto uma chuva como aquela: com força, o vento atirava a água contra a janela que (pensava ela) se espatifaria a qualquer momento: ela morava no sexto andar, as janelas eram velhas, o prédio todo era velho, lá embaixo estava o estacionamento, as vagas eram descobertas, a janela velha ia cair num dos carros velhos, ela ia ter de arcar com as despesas. "Mas, senhor, se não posso sequer pagar por novas janelas!", mas de nada adiantaria. 
Mesmo se fossem novas, não agüentariam segurar a água que se esgueirava por todas as frestas para invadir o apartamento, escorrendo parede abaixo. Ela a continha com panos de chão, mas isso era tudo. Lá fora, as trovoadas. Tantas, tantas, que sentia pena e medo por quem estivesse lá em baixo. Por pouco não era ela, se tivesse saído só um pouquinho mais tarde do trabalho. Por pouco não era ela, se não tivesse deixado para amanhã o que podia ter feito hoje. Ou ontem. Mas pouco continham a água os parcos panos (nunca comprados - ela não se conformava com gente que compra pano de chão. Pano de chão, para ela, tinha de ser roupa velha, toalha que arranha o corpo, camisola esburacada, presente velho de namorado já esquecido. As pessoas gastam tanto dinheiro com coisas inúteis, inúteis! E ela precisando de janelas). As poças se espalhavam pela sala e pelos quartos. A casa já não era dela. 
E, de repente, ao lado do lustre colorido - a única coisa cara na mobília, o único luxo a que se permitia, pois (ela pensava que) era preciso ter alguma cor dentro da casa branca - brotou uma gota. Com esforço e ternura, rompia o gesso do teto. Como quem nascesse. Aquele teto inteiro e ela atravessando lenta, apertada, um bocado por vez. Esmurrava a última camada entre o apartamento do vizinho de cima e o dela. Não podia deixar de compadecer-se da pequena gota (assim como é difícil não se compadecer de um bichano abandonado na rua). Assistia ao brotamento da goteira como um milagre da vida. Uma semente germinando ao contrário. Uma cabeça vazia e translúcida, inodora, um pouco ácida (mas não o suficiente para corroer o que a atravessa, pensava ela), mas frágil, sozinha. Mal nascia e logo seria mãe: assim que rompesse a barreira de gesso, seria gota gorda e adulta e, dela, cairiam pequenas gotas em direção ao chão, todas filhas dela. 
Assistia a tudo sozinha. E havia cumplicidade no fenômeno. Já nem mais havia o som das janelas se debatendo, da ventania, dos trovões, dos guarda-chuvas sendo revirados, de nada, de nada, de nada. O mundo inteiro havia parado para assistir à cena. Elas eram duas e… para sempre… mudadas. 
Atravessava. Finalmente. O lustre refletia no leito de gesso as sete cores de seus prismas. A gota inteira. Por pouco, por pouco. Apenas um segundo para se repartir - em duas, em cem, em mil, e completar a invasão da casa que não era sua. Mas (pensava ela) como era bem-vinda. E bela. Era preciso reparar a queda de alguma forma - e sentiu que elas eram duas; e cúmplices. Pôs-se abaixo da gota. E sentiu a primeira das filhas - quente! O lustre ou a ruptura? - beijando-lhe ombro. 
Ela também já não era mais dela.  


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