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Poema

Casa verde

 
Ana Maria Abrahão*
 
 
 
Resistiu por muitos anos
sozinha, cercada pelos edifícios
sua pintura desbotada e sua singularidade
chamavam a minha atenção
 
Fitava a antiga construção com tanto esmero
que nem eu mesma sabia por que
Seria por que, de algum modo,
evocava a “Casa verde”
já tão conhecida
no mais célebre conto de nosso Machado,
tão presente em meu imaginário?
 
E me perguntava até quando sobreviveria aquela casa
Ali, na Rua da Praia de Icaraí,
onde só havia prédios
cada vez mais altos e chiques.
Como sobreviveria
à força do sorvedouro da modernidade?
 
Não conheci sua história
nem seus antigos donos
Mas, com certeza, havia lá
histórias de vida
trajetórias brilhantes ou não
gritos de alegria
sussurros de medo
Ais de dor
Gemidos de paixão
 
Tudo foi demolido
há agora um grande vazio
Dentro em pouco haverá um enorme edifício
que nem de longe lembrará
a sutileza e o mistério da Casa Verde.
 
 
 
*Mestre em Literatura Brasileira e Teorias da Literatura pela Uff - Niterói/RJ. Professora de Literatura da Rede Estadual de Ensino/RJ. Ministra oficinas de literatura no SESC, unidade Três Rios/RJ. Membro do Grupo de Estudos Nação-narração - Uff/CNPq
 

 



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