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Conto

O coração na calçada

                                  
 
Mariângela Alonso*
 
 
 
         Defronte ao espelho da penteadeira percebeu que nada mais havia de ser retocado, exceto o batom, vermelho-sangue.
         Foi até ao guarda-roupa e como se estivesse vagarosamente perturbada escolheu a blusa de botões esquisitos. Não sabia o porquê de tal escolha. O que de fato sabia com toda a certeza do mundo era que suas escolhas eram fragmentadas. Sempre fora assim.
         A verdade é que toda ela era fragmentada, tinha uma espécie de divisão dentro de si e dizia todo o tempo que a razão disso era ter vivências incompletas. Ninguém entendia e então ficando sem entender, nada era para ser entendido quando o assunto referia-se a ela.
         Fechou a casa. Ganhou a rua em direção supostamente desconhecida. Naquele instante não queria saber onde é que iria se é que iria para algum lugar. O importante é que não queria saber. Assim como não queria saber de seus medos, seus ódios e suas infinitas frustrações.
         Com um suspiro prazeroso começou a observar os passantes. Quem eram? De onde vinham? Por que estavam andando naquela rua?
Ela não sabia responder estas perguntas, uma vez que responder sempre a deixara cansada. Sofria calada.
         Caminhar, na concepção dela, era algo tão impiedoso e cheio de ódio que a impaciência roia seu coração.
         E o coração? O que fazia o coração ali no peito, debaixo da blusa de botões esquisitos? Só agora dera conta dele. E dentro dele cabia tanta coisa! Poderia ser coisa suja ou limpa, mas cabia.
         Sentou-se na calçada e lentamente começou a desabotoar a blusa. Um homem a olhou com curiosidade, mas como se nem o tivesse notado, continuou a operação ruborizada de prazer.
         Foi desabotoando até que com uma das mãos tirou o coração de dentro do peito! Sim, o coração, ela o tirou.
         E muito satisfeita ficou olhando para ele durante alguns minutos. Certamente ela não o recolocaria no peito porque talvez o julgasse desnecessário algo que apenas ocupava lugar e para nada mais servia. Então com toda a força que vinha de suas entranhas o arremessou na calçada.
         Ficou olhando. Extática, incólume, levantou-se. Abotoou a blusa de botões esquisitos e tornou a caminhar.
         Sem olhar para trás continuou andando sem agora sofrer pela lamentável perda de um coração que agora jazia numa calçada.
         O que alguém faria com um coração na calçada?
            
 
* Mariângela Alonso é mestre em Estudos Literários pela Unesp, campus de Araraquara. Atualmente leciona Literatura Brasileira nas Faculdades Integradas Fafibe.
 
 

 



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