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Conto
O cansaço chegou
Mariângela Alonso*
Os ponteiros apontavam exatamente três horas da manhã e nada do sono chegar... Impacientou-se e então se ergueu do sofá da sala. Ultimamente era este o ambiente mais freqüentado por ela até que o sono chegasse. Mas este andava tão atrasado que ela só tinha como garantia a insônia que a acompanhava já há alguns meses. No dia seguinte, ao perguntarem a ela por que não dormira, o que estava acontecendo, só respondia um “não sei” tão parco que todos desistiam.
Talvez os outros não soubessem, mas havia alguém que sabia a exata razão das noites em claro: ela mesma. Os outros talvez desconfiassem, mas ela tinha a certeza da causa de sua insônia. A causa chamava-se Mancebo, tinha vinte e cinco anos e estava a quilômetros de distância. Precisamente uns trezentos e quarenta e mais precisamente ainda milhares de anos luz de distância.
Mexeu nos arquivos pessoais que continham os rascunhos das cartas que escrevera para Mancebo e teve vontade de chorar. Uma nítida dor invadiu o seu frágil coração de menina ou mulher ou ainda menina-mulher.
O relacionamento fora tão turbulento que involuntariamente quando ouvia certas músicas ou certos comentários que remetiam a Mancebo já começava a chorar, fragilizava-se tal uma criança abandonada, andando sozinha pela Terra.
Sabia com exatidão a data do fim do relacionamento: um ano e três meses. Ela não via Mancebo desde esta data. E essa constatação pesava, era difícil ficar sem vê-lo e saber que o fim já fora decretado. Ela sofria em silêncio. E era em silêncio que constatava também que durante todo este tempo não recebera um telefonema tardio, pedindo uma volta, passando uma notícia; apenas comentários de terceiros que às vezes a chateavam ainda mais e aprofundavam sua “dor”.
O que restara da relação com Mancebo eram cicatrizes que a impediam de buscar uma outra relação. Parecia que todas as coisas se relacionavam a Mancebo ou que o tinham como protagonista.
Encontrou no meio dos papéis o rascunho da última carta entregue pessoalmente a Mancebo. Era a que ele disse ter gostado muito e agradecido muito também. Só ela não se sentia grata apenas incompleta.
O cansaço chegara há alguns meses, definitivamente cansara de sofrer. Mas sofreu ainda mais quando descobriu que estava cansada de sofrer!
Estava tão sensível que quando as pessoas perguntavam sobre Mancebo abaixava o olhar para não ter de fixá-lo nos olhos dos outros, o que a incomodava. Muitas vezes respondia com a voz trêmula, o cansaço chegando sempre.
Até que resolveu fazer uma ligação para Mancebo. Ao redor concordaram, alguns exageraram no apoio dado. Esperou alguns dias, tomou coragem e discou os doze números.
Mancebo atendeu e pela primeira vez ela não titubeou na sua resolução, seguiu com a ligação. Ouviu a voz rouca soar do outro lado: “Alô”.
Quando disse quem era Mancebo já reconhecera. A conversa correu sobre rotina e projetos profissionais de ambos. Depois de quase vinte minutos ela sentiu que estava difícil de desligar. Mas tomou a iniciativa e desligou. Feito isso chorou demoradamente e mais uma vez teve a insônia como companhia.
Ela estava sozinha e ficou sem saber se ele estava. Na opinião dela Mancebo estaria com alguém, “é certo que sim”, pensava. O choro chegou tão rápido como o sono não fazia; chorou constatando que Mancebo não perguntara sobre sua vida afetiva __ não seria pedir demais? Ela não percebia, estava confusa. E confusa foi que passou o resto da semana.
Desejou não mais ver Mancebo depois da ligação. Desejou que ele sumisse, que desaparecesse do mapa definitivamente. Mas ele já havia sumido a um ano e três meses de sua vida. Ela não se dava conta disto e ainda o amava! Ainda uma sobra de sentimento, um resto, um detalhe que fazia toda a diferença. A casa pareceu desabar quando teve finalmente a certeza disto. Foi quando tomou-se agressiva por alguns dias.
Mostrou-se incoerente e imponente a algumas pessoas ou situações. Discordou, debateu, indignou-se e por fim calou-se dentro de si como um caracol acuado. Não adiantava, ninguém tinha culpa. Só ela. De que adiantava o percurso que vinha fazendo? Só via dor e era o que tinha restado.
Mancebo perdera a sua graça junto com algumas pessoas que deixaram de ter brilho na vida dela. O relacionamento a deixara tão frágil que talvez até o seu próprio brilho tivesse se perdido nessa fragilidade toda.
Olhava para um lado e via pessoas satisfeitas, olhava para outro e via insatisfação. Na verdade não sabia o que ver e como ver.
Pensou no fato de que a dor teria um dia o seu fim e teve fé. Mas chorou desesperadamente.
Desejou literalmente o colo da mãe, foi até ela e aconchegou-se. Os braços da mãe a protegeram do descaso que estava sentindo. Mas o descaso sempre existira e por que só agora notá-lo? A ligação para Mancebo e o cansaço...
Sentiu que foi perdendo a importância na vida de algumas pessoas e algumas pessoas foram perdendo a importância para ela também. Talvez fosse este o percurso natural do rio que estava acompanhando...
Soltou-se dos braços da mãe e no caminho para o seu quarto, no corredor escuro, pensou novamente que a dor teria seu fim e a felicidade chegaria... Teria de chegar...
Estava cansada... Aconchegou-se debaixo do cobertor... o sono deveria chegar...
* Mariângela Alonso é mestre em Estudos Literários pela Unesp, campus de Araraquara. Atualmente leciona Literatura Brasileira nas Faculdades Integradas Fafibe.
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