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Vômito de luz


Carlos Eduardo Louzada Madeira*
carloselmadeira@gmail.com
http://mondodisegni.blogspot.com

 

           Sentimento espesso. 
 
           Vem aos poucos soterrando as ilusões, evidenciando o podre, o escasso, o desprezível, o dispensável. É o calor da terra se apoderando do corpo, explodindo os poros, vomitando o suor na luz indissipável do sol intransigente. 

           Ela é a mãe da violência. Essência do essencial. O som se alastra pelo dia, apoderando-se de tudo aquilo que cruza o seu caminho. É o ritmo poderoso de um tempo distante, de uma terra vermelha e de um homem liquefeito. É o corte da lâmina que se entranha na alma do viajante incauto, que se crê isento e imune à interferência da fluidez etérea do canto da morte, parte integrante. 

           Vida transitória. Jorra o laranja-odre por cima das certezas infames, que esbarram no clarão do amarelo-ouro, metal pesado. 

            Subi na árvore e sorvi com sofreguidão o fruto que se oferecia. A pele arranhada nos espinhos e curtida pelo sol, a mente há muito entregue à opacidade da existência medíocre. Mas vale o sangue nas veias, o pulsar irreprimível, a partitura sincera, o sorriso gratuito, a morte bela, a criança viva, a lágrima e o abraço. 

           É a dúvida da noite, a voz da lua, o vinho-ritual, a porta, a lâmina-veludo, a calma. E o som já avança pela noite, artéria rasgada. Foi na escuridão que a melancolia pediu passagem. Foi entrando e se instalou no assento mais confortável. Presença marcada e irrefutável. 

          Silêncio.


Carlos Eduardo Louzada Madeira é Mestrando em Literatura Brasileira no Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Especialista em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

 



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