Criação
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Uma faixa preta na fila
Manoel Barreto Júnior
Um calor insuportável. Primeiro dia útil logo após o feriado. Contas a pagar, cheques a serem cobertos, faturas, extrato bancário para solicitar. Coisas banais se não fosse, também, final de mês. Ave, fila. Uma fila hoje em dia representa o calvário da modernidade.
A irritação parecia ser a companheira constante de todos aqueles ali presentes. Era cedo e não se compreendia o que tanta gente estava fazendo ali àquela hora. Era cedo, na frente de Tânia contavam-se aproximadamente trinta e tantas pessoas. O movimento da fila era, digamos, franciscano e misericordioso a danada se arrastava e a impaciência tomava conta de todos.
Ao longe as máquinas de autoatendimento pareciam uma miragem. Um oásis para quem desejava livrar-se daquela malfada obrigação. Afinal qualquer coisa é mais interessante do que estar numa fila.
Assim, também, pensava Tânia, uma mulher alta de porte atlético, casada, mãe de três filhos, falastrona e nada discreta em sua maneira de se vestir. Uma cidadã exemplar. Respeitava o que era preferencial, zelava pelo respeito ao próximo, cuidava de sua vida financeira com o esmero possível e responsável. Não se perdoara por está ali naquele instante. Um vacilo! Poderia muito bem ter evitado aquele momento com o simples agendamento de contas, porém não o fez. De maneira que, já não havia tempo para se lamuriar pelo não feito. Gerson, companheiro e amigo, para todas às horas, acompanha sua digníssima par e passo durante a trajetória sequencial, linear e nada emocionante, antes desagradável duma fila. Gerson, ao contrário da mulher, era um cara pacato, de pouca conversa e muito observador. E quando surgia um momento tenso saia de mansinho com uma vermelhidão intensa.
O tempo passa, e, as sacrossantas máquinas estavam cada vez mais próximas. Agora, Tânia já era a décima primeira da fila. Como uma mulher precavida; e com a ansiedade que lhe é peculiar, pegou logo na bolsa seu cartão magnético, já então com ship, (seria a primeira vez que usaria o danado) uma fatura de uma loja de eletrodomésticos. E a última parcela do IPTU que venceria naquele dia. Perante o ócio instalado na fila conversava amenidades com Gerson, ao mesmo tempo em que observava a agilidade e a lerdeza dos clientes que já desfrutavam das benesses daquelas divinas máquinas. Divinas quando conseguem ler o código de barra, caso contrário: diabólicas máquinas!
Finalmente, Tânia margeava aquela faixa amarela horizontal, que traz como bálsamo a frase: aguarde sua vez. - Já notou que quando chegamos ali, quase nada nos estressa? Pois bem, falei quase nada.
Aliviada por ali estar, Tânia se distrai, pensando no próximo feriado. Quando sorrateiramente um cidadão alto, trajando bermudas, camiseta, chinelos e óculos espelhados, com um montão de documentos na mão, localizado, imediatamente, atrás daquela forte mulher, ultrapassa a faixa e vai em direção à máquina. O silêncio, então, consome as demais pessoas da fila, como quem desejasse qualquer atitude. Ou do segurança da agência, ou do homem franzino que tanto conversava com aquela mulher, ou quem sabe da própria mulher, agora, trapaceada por um insensível e covarde indivíduo.
Tânia apesar de estabanada era uma mulher pacífica. Porém, um tanto confusa, com o acontecido, segue em direção ao homem e lhe disse, polidamente:
- Senhor, pela ordem.
O cara desconsidera a interpelação e começa a manusear o equipamento, não se abalando com o chamado. Gerson ficou vermelho e encostou-se junto ao homem, advertindo-o que sua mulher era faixa preta.
E, assim, o desespero tomou conta da agência. Papel para todo lado, correria, um sufoco. Um barraco prestes a acontecer.
Tânia pegou o homem pelas costas, com apenas uma mão; guardou os seus documentos e o cartão magnético, com ship, enquanto procurava algo na bolsa como quem quisesse evitar dissabores maiores. E Gerson, novamente, buscando evitar o pior, preveniu ao cidadão em bom tom:
- Minha mulher é faixa preta, entendeu?
A fila se desfez. Gerson, já vermelho, se afastou e Tânia, ainda, segurando o cidadão pela camisa parecia ter achado o que tanto procurava na bolsa. A tensão se instalou naquele espaço hostil e desconfortável da agência bancária, todos ficaram com os olhos estatelados. O homem agitado deixou cair os documentos e como quem aguarda um golpe marcial, daquela furiosa mulher, fica em posição de defesa. Então, Tânia retira da bolsa duas caixas de remédios faixa preta.
Manoel Barreto Júnior é Mestre em Estudos de Linguagem. Universidade do Estado da Bahia.
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